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Sida ainda alimenta preconceitos

15 Dezembro, 2008 0

“Os seropositivos, como qualquer cidadão em geral, têm o direito de não serem discriminados, pelo que, independentemente do estado de saúde, deve ser sempre respeitado o regime de igualdade”, diz Paulo Sancho

Se, há uns anos, a infecção VIH/Sida estava intrinsecamente ligada a determinados grupos de risco, nomeadamente aos homossexuais e a toxicodependentes, desde há vários anos que os dados apontam para um crescimento do número de casos entre os heterossexuais. Segundo o último relatório do Instituto Nacional Ricardo Jorge, referente ao primeiro semestre de 2008, é na população com mais de 55 anos que é mais notória esta tendência.

A mesma análise indica que, nos primeiros seis meses deste ano, foram notificados 317 casos de infecção VIH/Sida, o que perfaz um total de 33.815 casos identificados desde 1983 – data dos primeiros casos de Sida em Portugal. Estas estatísticas colocam o nosso País nos primeiros lugares da tabela europeia, a seguir à Estónia, com maior número de infecções por 100 mil habitantes.

Segundo o Prof. António Mota Miranda, infecciologista e membro da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da Sida (APECS), “o nível cultural e a educação continuam a ser factores que colocam a população portuguesa em risco de contrair a infecção”. Refere o especialista que, para melhorar o panorama epidemiológico da infecção VIH/Sida no país, “é mandatório investir em medidas que despertem uma maior consciencialização da população para o risco e para a vulnerabilidade da infecção”.

O vírus da imunodeficiência humana (VIH) não escolhe raça, cor, idade, sexo estatuto socioeconómico ou cultural, pelo que “ninguém está livre de adquirir a infecção”. Acontece, porém, que os motivos culturais ainda tornam vulneráveis determinadas populações, principalmente quando se torna socialmente aceitável a poligamia ou a recusa do uso do preservativo, o principal método-barreira para evitar o contágio.

A partir do momento em que se adquire o VIH até à altura em que a Sida se desenvolve podem decorrer, em média, entre 8 a 11 anos. “A evolução natural, sem intervenção terapêutica, da doença até à morte pode variar entre alguns meses a alguns anos”, justifica o especialista. Contudo, hoje em dia, com as ferramentas terapêuticas “é possível prolongar, por várias décadas, a esperança média de vida de um doente, bem como a sua qualidade, sem que o mesmo apresente qualquer manifestação de doença”.

Estão, no entanto, identificados dois tipos de vírus da imunodeficiência humana, cujos comportamentos são diferentes. “O VIH-1 é um vírus mais agressivo e a progressão da infecção assintomática [em que não apresenta sintomas] para Sida é mais rápida, contrariamente ao VIH-2, em que o período de latência clínica pode atingir duas a três décadas. O VIH-2 tem um menor risco de transmissão por qualquer das vias, ao passo que o VIH tipo 1 é mais facilmente transmissível.”

Travar a propagação através da prevenção

O sistema imunitário pode ser comparado a um “exército”, com várias células que desempenham diferentes papéis nas defesas do organismo. Porém, quando as células CD4, um tipo de linfócitos (glóbulos brancos), são invadidas pelo vírus da Sida, o sistema perde os seus “generais”. Estas células funcionam como agentes de autoridade dentro do sistema imunitário e são elas que emitem ordens para nos defendermos das agressões. Como o VIH é um vírus “inteligente”, apropria-se das células e faz com que toda a “maquinaria” celular reproduza cópias do VIH.

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