Educação Sexual
A sexualidade deixou de ser um terreno privilegiado de controlo social, tal como foi descrito por Michel Foulcault (1976) para ser sobretudo um terreno de construção individual onde a diversidade parece imperar.
Como refere também Michel Bozon (2002: 31), “Na sexualidade contemporânea, a procriação .não ocupa mais do que um espaço reduzido e marginal.
A sexualidade aparece mais como uma experiência pessoal, fundamental na construção do sujeito, no centro de um domínio que se desenvolveu e ganhou um peso considerável ao longo dos séculos, a esfera da intimidade e da afectividade. O repertório sexual alargou-se, as normas e trajectórias da vida sexual diversificaram-se, os saberes e as representações da sexualidade multiplicaram-se”.
Não que tenha desaparecido o controlo social sobre a sexualidade mas, na nossa sociedade, ele opera-se sobretudo na delimitação dos comportamentos extremos e que são considerados desviantes ou criminosos, como por exemplo a pedofilia e não nos comportamentos individuais. Fora estes problemas específicos, a sexualidade é hoje socialmente considerada uma área fundamentalmente de expressão íntima dos indivíduos e dos casais, devendo ser preservada, por isso, dos ditames morais do meio social envolvente.
(1) Ainda hoje, a educação sexual aparece como uma reivindicação do movimento estudantil do ensino secundário, que só pode ser entendida como um protesto contra o silêncio da escola nestas matérias.
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Este conjunto de mudanças que descrevemos reflectiram-se naturalmente em todos os actores e processos e condições de socialização.
De forma resumida, podemos dizer que uma das características típicas da vivência da sexualidade na modernidade tardia é a modificação radical dos contextos comunicacionais em que ela ocorre, no sentido de uma multiplicação e quase saturação de mensagens sobre os “temas sexuais”.
De facto, a sexualidade deixou de ser um tabú. Ao contrário dos universos fechados e erotofóbicos típicos de épocas anteriores, vivemos hoje uma época de permissividade em matéria de normas de moral sexual (Reiss, 1990) e, portanto, a educação sexual informal e espontânea é actualmente mais fácil e fluente.
Por isso, e face ao processo de liberalização das normas sociais relativas à sexualidade, e face ao lugar central que as questões sexuais ocupam nos universos mediáticos da modernidade, algumas vezes, como no caso já referido, vemos surgirem posições que questionam e subvalorizam a actual necessidade da educação sexual intencional (2).
Que papel poderá então ter a intervenção dos profissionais, na escola ou noutros círculos de socialização das crianças e dos jovens?
Redefinir a educação sexual
Parece-nos importante, no entanto, e antes de continuar a utilizar este conceito de educação sexual, que o mesmo seja revisitado já que em si mesmo contém múltiplos entendimentos e continua a ser objecto de tremendas confusões.
Sendo socialmente modelada, a sexualidade humana e as suas regras morais foram sendo construídas e modeladas nas transformações sociais mais globais, nas mudanças que se foram produzindo nas mentalidades e nas instituições com ela mais relacionadas, nomeadamente a conjugal idade e o campo das relações familiares” (Vilar, 2003).

