Dor neuropática: Não mata, mas mói
É imprevisível, surge sem aviso prévio e causa um enorme desconforto. Fala-se, pois, da dor neuropática, que, apesar de imperceptível aos olhares alheios, é real. Só quem enfrentou uma jornada contra a dor sabe o quanto custa viver refém de um corpo que está permanentemente em sofrimento. Mas, hoje em dia, a Medicina já dispõe de armas terapêuticas capazes de aliviar e trazer mais tranquilidade à vida destes doentes.
Francisco Crespo conhece bem de perto a sensação permanente de picadas, de formigueiro e queimaduras. Ao fim de 10 anos de sofrimento constante, foi encaminhado para uma Unidade de Dor, por recomendação de uma médica que o estava a seguir. Só nesta altura descobre que a dor que lhe consumiu o corpo e lhe provocou mal-estar, ao longo de uma década, afinal tinha um nome.
A dor neuropática é ainda uma ilustre desconhecida da maioria dos portugueses. Segundo um estudo de percepção, realizado recentemente, só 29% da população nacional sabia o que era a dor neuropática. De acordo com o Dr. Luís Cunha Miranda, director Clínico Adjunto do Instituto Português de Reumatologia, “Portugal apresentou uma das mais baixas percentagens de conhecimento deste tipo de dor”, por comparação a outros países, onde a percepção e o reconhecimento dos sintomas chegou aos 94%.
Talvez o facto de haver, ainda, algum desconhecimento em relação à dor neuropática justifique que Francisco Crespo tenha coabitado anos a fio com uma dor que não o deixava em paz. 1999 foi um ano de viragem na vida deste doente. Sofreu um acidente de trabalho que lhe imobilizou um braço. E, daí em diante, nunca mais teve uma vida sossegada: a dor acompanhava-o para todo o lado. “Ainda tomei vários medicamentos, mas a dor não passava. Estava fora de controlo”, desabafa.
Desde que teve o acidente, o dia-a-dia de Francisco Crespo ficou virado de pernas para o ar. Devido às dores fortes que sentia na mão, foi assistido por “seis médicos”. Mas nenhum lhe conseguiu abafar as queixas. Depois de ter andado de médico em médico, começou a ser seguido, desde há dois anos, por uma psiquiatra, porque se suspeitava que a dor que trazia agarrada ao corpo tinha um carácter psicológico. Mas a dor neuropática era real e não fruto da imaginação.
Este sofrimento físico, que se arrastou durante anos, acabou por deixar sequelas. “A minha vida social e familiar foi muito afectada pela dor”, confessa. Por causa do mal-estar constante, Francisco Crespo, 39 anos, isolava-se do mundo. Esta dor que tomava conta do corpo acabou por lhe provocar uma depressão, razão pela qual continua a ser seguido pela psiquiatra e a tomar medicação para o efeito. “A dor neuropática tem um tremendo impacto na qualidade de vida dos doentes. O sofrimento, a incapacidade, e o receio de que a dor possa ser definitiva leva a que toda a esfera social, física e psíquica do doente possa estar alterada”, acrescenta Luís Cunha Miranda.
Vidas interrompidas
Francisco Crespo deixou de trabalhar depois do acidente que lhe deixou o braço esquerdo paralisado. A dor que estava colada ao corpo impediu-o de manter a sua actividade. “Os médicos ainda tentaram uma estratégia rigorosa com medicamentos, cujos horários eram apertados: das 8 da manhã às 24 horas. Mas acabaram por concluir que estes fármacos não estavam a surtir efeito na dor neuropática.”

