Dor neuropática: Não mata, mas mói
Em circunstâncias normais, quando há uma lesão (por exemplo, uma queimadura com água quente), são activados receptores, sensíveis a vários estímulos: térmicos, mecânicos e químicos. Mas, no caso particular da dor neuropática, o processo é ligeiramente diferente. “A dor deixa de constituir um sinal avisador (dor sintoma) e passa a ser, ela própria, o principal problema (dor doença). Mesmo depois de o estímulo doloroso que lhe deu origem ter sido ultrapassado, a dor persiste”, explica Francisco Sampaio.
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“Por exemplo, um doente com uma amputação de um membro, pode continuar a sentir dor proveniente do segmento amputado – a conhecida «dor do membro fantasma»”, adianta. Não quer isto dizer que a dor seja imaginária ou fictícia. A dor efectivamente existe, mas passou a estar desligada da causa que inicialmente lhe deu origem.
“A dor neuropática foge um pouco dos padrões convencionais de dor. Pode-se manifestar por uma sensação de ardor, queimadura, formigueiros e choques eléctricos”, esclarece Teresa Vaz Patto. “Caracteristicamente, a dor tem uma dimensão social e pessoal muito elevada em Portugal. E é sofrida em silêncio, com toda a resignação, o que entrava o diagnóstico precoce”, completa Luís Cunha Miranda.
Quotidiano alterado
Cátia Medeiros, tal como Francisco Crespo, percorreu vários médicos até ao diagnóstico de dor neuropática. Em ambos os casos, pensou-se que o sofrimento destes doentes podia ter uma raiz psicológica. “Ninguém conseguia perceber o que eu sentia. A endrocrinologista que me seguiu ainda equacionou a hipótese de ser dor neuropática. Mas achava que eu era nova demais para sofrer deste problema”, conta a jovem enfermeira.
Segundo Teresa Vaz Patto, a dor neuropática não escolhe sexo, nem idade. Pode surgir em qualquer etapa da vida. E, embora a dor não mate, “interfere com as actividades da vida diária”, aponta a anestesista. Cátia Medeiros sabe o quanto esta dor pode limitar o quotidiano. “Havia momentos do dia em que estava sem dores. Mas, ao mínimo movimento, as dores voltavam e eram insuportáveis. Passei muito tempo na cama, sem me mexer.”
A jovem enfermeira viu o estágio final de curso ser adiado, por causa da dor neuropática. A partir do momento em que foi feito o diagnóstico, começou a tomar a medicação. “Foi quase imediato. Quando dei por mim já não tinha dor”, diz. O sofrimento ficou no passado. E, apesar de não estar a tomar a medicação neste momento, por recomendação do neurologista, agora já sabe como intitular a dor que sentia.
Para Teresa Vaz Patto, nem sempre é fácil chegar ao diagnóstico, já que “os sintomas são um pouco subjectivos”. Daí que, “muitas vezes, a sintomatologia seja subvalorizada”. Os doentes, embora reconheçam que algo está errado, “nem sempre encontram as palavras certas para descrever a dor”.
“A primeira dificuldade do diagnóstico resulta muitas vezes de o próprio não saber transmitir aquilo que sente”, corrobora Francisco Sampaio. “As queixas, por vezes bizarras, que os doentes apresentam, referindo fenómenos de hiperalgesia [reacção exagerada a estímulos dolorosos] e alodinia [sensação dolorosa perante um estímulo que normalmente não provoca dor], fazem com que algumas vezes sejam encarados como sendo do foro psiquiátrico”, adianta.

