Alcoolismo nos jovens
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Passar das marcas
O álcool é uma substância depressora do sistema nervoso central. Numa primeira fase contribui para um aparente estado de euforia. Mas, passado este efeito, tem uma acção oposta. “Em termos emocionais, o álcool diminui a tolerância à frustração. O seu consumo é, muitas vezes, usado como meio de diversão e de socialização”, completa Francisco Henriques.
Hoje em dia, “a precocidade da idade de início do consumo de bebidas alcoólicas é uma realidade preocupante”, confessa o Dr. Samuel Pombo, psicólogo clínico do Hospital de Santa Maria. “Na década de 70, os jovens começam a ingerir álcool aos 18 anos. Mas, actualmente, essa média de idades ronda os 13 ou 14 anos.” Mas não só mudou a faixa etária, como, ainda, o padrão de consumo e o modo como os jovens se relacionam com a bebida. Se até há uns anos, a ingestão de álcool passava pela cerveja ou vinho (às refeições), hoje em dia, as escolhas recaem sobre a ingestão quase compulsiva de shots ou bebidas brancas (destiladas).
“Esta questão é preocupante nos jovens, porque o cérebro e o fígado não estão preparados para um consumo alcoólico antes dos 18 anos. Se o uso de álcool for sistemático e continuado, ao final de um ano já se sentem os efeitos perversos. O cérebro perde a capacidade de memorização, de concentração e de raciocínio abstracto”, informa Francisco Henriques.
“Uma ‘bebedeira’ serve para se aprender qual a zona limite de consumo. A relação com o álcool torna-se perigosa quando não há um controlo sobre o momento em que se deve parar autonomamente”, aponta o mesmo especialista.
“Nas primeiras experiências com as bebidas alcoólicas, os estudos indicam uma maior preponderância dos factores sociais e psicológicos, ao passo que na dependência do álcool os factores biológicos parecem ter maior relevo”, adianta Samuel Pombo.
Segundo o psicólogo clínico, “os factores genéticos parecem influenciar a resposta do adolescente ao efeito do álcool”. Um jovem “com elevada tolerância ao efeito tóxico do álcool tem maior risco de desenvolver problemas com esta substância”, acrescenta. Se a estes factores se somar “os mecanismos neurobiológicos, um contexto social e cultural vigente (permissivo ao consumo de álcool e alcoolização), pode-se esperar um potencial de abuso de álcool bastante inflacionado”. Um adolescente que “inicie um consumo aos 13 anos e que mantenha a sua regularidade, tem uma forte possibilidade de desenvolver dependência alcoólica aos 18 ou 19 anos”, garante Rita Lambaz, psicóloga da Unidade de Alcoologia de Lisboa.
Misturas explosivas
“Actualmente, os jovens têm contacto cada vez mais cedo com o álcool, talvez pelo facto de as saídas à noite acontecerem mais precocemente”, explica a Dr.ª Rita Lambaz. “Há um viver em fuga, uma pressa em crescer”, justifica. Para além destes factores, quais as motivações que levam os jovens a beber? “Há uma acessibilidade da substância, um incentivo ao consumo através da publicidade e dos modelos adultos de referência, passando-se a ideia de que o álcool é inofensivo e que tem efeitos positivos”, responde.

