Porque falha o coração?
Quando o coração começa a falhar A doença coronária surge, por norma, na sequência de lesões ateroscleróticas, que, com o passar do tempo, podem obstruir as artérias que conduzem o sangue ao coração. E o que é a aterosclerose? “É uma manifestação clínica que resulta do depósito de gordura no lúmen [parede] das artérias e que as torna mais espessas e estreitas”, explica o Dr. Carlos Aguiar, cardiologista do Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Assim, e devido a este “afunilamento” das artérias, o fluxo de sangue vai sendo cada vez mais reduzido, impedindo, desta forma, que o coração receba os nutrientes e oxigénio para continuar a funcionar. Perante uma actividade física mais brusca ou um stresse emocional intenso, é exigido um esforço redobrado ao coração. Contudo, em virtude do estreitamento das artérias, há uma interrupção súbita do fluxo sanguíneo na artéria e, por falta de alimento, o coração entra em sofrimento, vulgo isquemia. “Nesta situação, geralmente sente-se uma pressão na parte central do peito, um aperto ou um ardor, que, por norma, cessa, quando se diminui o esforço físico que despoletou este bloqueio”, adianta o cardiologista. Da isquemia “resulta a angina do peito: um sintoma benigno e transitório que faz suspeitar da existência de doença coronária”. O risco mais elevado surge quando as placas de gordura (ateroma) se misturam com a circulação sanguínea, dando origem a um coágulo que obstrui, total ou parcialmente, a artéria. Apesar de uma haver uma capa fibrosa a barrar este contacto, face a uma situação de stresse exacerbado ou um esforço físico aumentado, esta “cápsula rompe-se e, se houver uma coagulação muito activa, podem-se formar os chamados trombos (coágulos)”, sublinha o cardiologista. Nestes casos, existe o perigo iminente de o coágulo entupir a artéria, dando origem a um enfarte agudo do miocárdio. Significa isto que o coração, após a obstrução da artéria, deixa de ser irrigado e, por conseguinte, não recebe o oxigénio e nutrientes para se manter em funcionamento. “Um enfarte agudo do miocárdio [músculo cardíaco] é uma manifestação clínica, potencialmente fatal e com compromisso de vida, exigindo hospitalização e cuidados intensivos nas 12 primeiras horas”, completa Carlos Aguiar. Depois de consecutivas agressões, o coração começa a dar sinais do seu enfraquecimento. Deste cansaço resulta um bombeamento insuficiente ou uma recepção deficiente do sangue. “A falência do coração traduz-se, assim, numa diminuição da irrigação a outros órgãos, provocando fadiga muscular, cansaço físico e diminuição da diurese [urinar], falta de ar, em virtude do esvaziamento inadequado do sangue”, fundamenta a Prof.ª Dulce Brito, consultora de Cardiologia do Hospital de Santa Maria e Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Após um enfarte agudo do miocárdio, em resultado da obstrução das artérias, parte do tecido cardíaco pode sucumbir à morte, deixando de funcionar. “O restante músculo cardíaco sobrevivente tentará, posteriormente, adaptar-se a esta nova realidade, que se designa por insuficiência cardíaca crónica.” Uma das situações que está na génese deste problema pode ser, ainda, a hipertensão arterial, que, quando não tratada, exerce uma “sobrecarrega diária no músculo cardíaco, fragilizando-o depois de algum tempo”.

