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Dossier: Epilepsia

27 Novembro, 2011 0

Existem diversas definições de epilepsia (umas clínicas, outras neurofisiológicas), que podem no entanto ser sintetizadas na de Henry Gastaut, que diz “epilepsia é uma afecção crónica de diversas etiologias, caracterizada pela repetição de crises devidas a uma descarga neuronal excessiva (crises epilépticas) associadas eventualmente a sintomas clínicos”.

Portanto, uma crise única não é sinónimo de epilepsia, tal como as crises acidentais ligadas a situações agudas (convulsões febris, encefalite, traumatismo cranioencefálico, insuficiência renal) também o não são. Esta é uma noção importante, visto que um doente pode sofrer de crises epilépticas graves e frequentes durante uma doença cerebral aguda e não voltar a ter mais crises durante o resto da vida. A noção de epilepsia implica, pois, a recorrência de sintomas ao longo de meses ou anos.

A epilepsia tem uma prevalência de aproximadamente 1% da população a nível mundial, sendo considerada a doença neurológica mais frequente. A incidência anual de novos casos diagnosticados rondará os 5-10 % deste valor.

É importante notar que a crise epiléptica comporta uma evidência neurofisiológica, traduzida no electroencefalograma (EEG), e uma evidência clínica, que pode ser a ausência, a convulsão, etc. Este último aspecto é fundamental, pois na maior parte dos casos não são encarados como doentes epilépticos as pessoas que apresentam apenas alterações inespecíficas no EEG.

Referência Histórica

São imemoriais as primeiras referências históricas à epilepsia, doença conhecida já no Antigo Egipto (3000 anos a.C.). Às ligações iniciais com a histeria e outros estados mórbidos relacionadas na época com o deslocamento do útero, sucedeu-se o carácter “sagrado” desta doença, muito desenvolvido pelos gregos que acreditavam ser possível a comunicação das sacerdotisas com os deuses, quando estas proferiam os seus oráculos no meio das convulsões.

É Hipócrates, na sua monografia sobre “a doença sagrada”, o primeiro a identificar como sede da doença o próprio cérebro tentando, neste como em outros aspectos da Medicina, estabelecer princípios científicos sobre a patologia. Tanto os hebreus como os romanos mantiveram a ligação da doença a forças extra-naturais, sendo-lhe atribuída nomes diversos como “doença dos demónios”, “morbus insputatus”, pois era prática cuspir nos doentes como medida preventiva para se proteger da doença, e ainda “mal comicial”, devido ao facto dos comícios romanos serem interrompidos de cada vez que um dos participantes tinha uma crise convulsiva, encarada como um sinal divino. O termo “comicialidade”, uma herança desses tempos, perdura até hoje na terminologia médica.

É Avicena quem primeiro emprega o termo “Epilepsia”, que significa em grego “ser apoderado” ou “ser possuído”. Este autor continua, no entanto, a relacionar a doença com forças sobrenaturais. A idade média não trouxe qualquer esclarecimento adicional sobre a doença, sendo esta frequentemente relacionada com a bruxaria e os doentes queimados por heresia.

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Só no século XIX se assiste a uma progressiva alteração destes conceitos, sobretudo através da escola francesa da Salpêtrière. Primeiro com Georget, depois Briquet, Charcot, Babinski e Gowers, assiste-se nessa altura a um rápido desenvolvimento de diversos conceitos relacionados com a epilepsia e também a uma modificação na sua abordagem terapêutica.

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