Dossier: Epilepsia
Data de 1857 a primeira utilização de um fármaco com alguma eficácia no controlo das convulsões. Foi Sir Charles Locock, obstetra da Rainha Victória, o primeiro a utilizar os brometos na epilepsia, que constituíram até ao final da primeira década do século XX a única terapêutica disponível. A introdução em 1912 do fenobarbital, em 1937 da fenitoína e em 1952 da carbamazepina foram, até à década de 70, outros passos importantes no controlo médico da doença.
A um estado quase letárgico no desenvolvimento de novos medicamentos até essa altura, sucedeu-se o aparecimento progressivo, no último quartel do século XX, de inúmeros fármacos, cada vez mais eficazes e com menos efeitos acessórios, o que permite hoje em dia que o doente com epilepsia tenha à sua disposição um manancial terapêutico extremamente eficaz. Além do mais, e aproveitando a “década do cérebro”, a epileptologia, enquanto ramo das ciências neurológicas, apresentou um desenvolvimento ímpar, quer no que respeita ao conhecimento dos mecanismos básicos, quer aos meios complementares de investigação e às soluções terapêuticas.
Apesar deste longo caminho, e de todo o interesse que a doença tem causado ao longo dos séculos, ainda hoje persiste uma incompreensão generalizada em relação ao doente com epilepsia, sendo frequentes, como todos sabemos, os preconceitos com que estes indivíduos se deparam ao longo da sua vida.
Diagnóstico da Epilepsia
O diagnóstico de uma Epilepsia é fundamentalmente clínico e os meios complementares habitualmente utilizados, como sejam o EEG, a tomografia computorizada (TC CE) ou a ressonância magnética (RMN CE), servem para uma melhor caracterização da situação e avaliação da sua etiologia. As crises epilépticas, tal como o seu nome indica, têm em comum uma característica especial, que é o seu aspecto crítico: início e final bruscos, curta duração – poucos segundos ou minutos. São igualmente estereotipadas em cada doente. As crises de longa duração (superiores a 15-20 minutos) não são geralmente de origem epiléptica.
Há ainda que ter em conta que a sintomatologia pode ser extremamente variada, desde a clássica convulsão tónico-clónica até alterações da consciência, breves e pouco evidentes, passando ainda por diversos fenómenos sensoriais, como sejam alterações gustativas, olfactivas ou visuais. No entanto, as queixas frequentemente referidas pelos pais de crianças em idade escolar de que estas se apresentam distraídas, irrequietas ou com mau aproveitamento escolar, não correspondem na grande maioria das vezes a crises epilépticas.
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Faz-se habitualmente uma divisão dos quadros de epilepsia em epilepsias generalizadas (quando as alterações apresentadas são logo de início generalizadas aos 2 hemisférios cerebrais) e epilepsias parciais (se essas alterações estão apenas localizadas a uma região particular do cérebro).
Em relação às crises generalizadas, as mais frequentemente encontradas são as convulsões tónico-clónicas (que se caracterizam por perda súbita de conhecimento, contracção tónica dos músculos dos 4 membros, depois abalos clónicos, por vezes mordedura de língua e emissão de urina) e as ausências, durante as quais o doente fica parado, apresentando por vezes alguns movimentos discretos das pálpebras ou dos lábios, com recuperação muito rápida. Estas últimas podem ser muito frequentes, por vezes mais de 20-30 por dia.

