Cuidar da criança é preparar o futuro
A defesa do melhor interesse da criança tem sido sempre uma bandeira que os pediatras desde o início empunharam. A Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), desde a sua fundação em 1948, tem, pelo seu carácter representativo de todos os pediatras, procurado estar na vanguarda dos que defendem o papel decisivo da criança na sociedade portuguesa.
A SPP e muitas das suas secções tiveram uma acção importantíssima em congregar esforços no denunciar de situações como a violência e os maus tratos infantis, na promoção da Saúde Infantil através de campanhas para defesa do aleitamento materno, do aconselhamento de práticas alimentares adequadas, do apoio e alargamento dos programas de vacinação, da organização de múltiplos eventos com carácter formativo para pediatras, médicos de família e outros profissionais de saúde, realizados um pouco por todo o País.
É evidente que nesta luta a SPP e os pediatras não estiveram sós, contando com o apoio de quem se interessa pelas crianças tal como muitos outros profissionais de saúde (médicos de saúde pública, médicos de família, enfermeiros) juristas, educadores, assistentes sociais entre outros.
A criança é um ser em desenvolvimento, cuja saúde, entendida aqui no sentido mais lato de bem-estar físico e psíquico, tem impacto não só no seu presente, mas também pela importância decisiva que irá ter na sua vida como adulto.
A luta pela protecção da criança portuguesa no seu direito inalienável à Saúde, à Educação, ao Amor, enfim à Felicidade, contra todas as formas directas ou indirectas de violência, deverá ser uma preocupação continuada da sociedade e do Estado.
Portugal é um país com uma taxa de natalidade que se tem vindo a reduzir ao longo da última década que actualmente se fixa nos 10,8%oo, sensivelmente idêntica à taxa de mortalidade (10,4%oo).
Entre os censos 91-2000 constatou-se um aumento da população da ordem dos 5%, mas com importantes variações nos escalões etários: aumento de 26,1% para os maiores de 65 anos, e diminuição nos escalões mais jovens, 8,1% entre os 14-25 e de 16% entre os 0-4 anos, o que corresponde a um nível de envelhecimento de 106,8%.
Estes números indicam que a criança se tornou um bem escasso. E quanto mais escasso, mais valioso e precioso deve ser considerado.
Tanto mais valioso porque uma criança não vale só por ela, mas pelo adulto em que se tornará.
Muitas das doenças das sociedades desenvolvidas começam ou têm raízes na infância e mesmo às vezes na vida fetal, habitualmente relacionadas com o estado nutricional ou práticas alimentares iniciadas desde muito cedo na vida; obesidade, arteriosclerose, hipertensão, osteoporose. Também muitos dos problemas de saúde mental e enquadramento social do adulto, incluindo problemas de adição e violência, têm a ver com problemas vividos na idade pediátrica em que se destaca: falta de afecto, insegurança, abuso, maus-tratos passivos ou activos.
Assim, apesar das crianças serem minoritárias na sociedade portuguesa, os cuidados de saúde à população infantil revestem-se de um carácter que transcende o próprio momento em que são prestados e podem ter influên-cia no seu futuro e no da própria sociedade. Mesmo dum ponto de vista estritamente económico faz sentido investir neste campo para colher proveitos mais tarde, com muito menos despesas. Faz seguramente parte do planear o futuro.

