Cuidar da criança é preparar o futuro
A grande redução das mortalidades neonatal e perinatal ocorrida nas últimas décadas (mesmo na última década reduziram-se de cerca de 50%) foi fruto da implementação no terreno de uma boa política de assistência, baseada em recursos humanos e equipamentos, assente em bons pareceres técnicos.
Essa interligação exemplar entre os técnicos e os decisores políticos que tão bons resultados deram no campo do nascer em segurança, deve ser replicada para a outra vertente da saúde infantil: crescer saudável.
A criança como um bem precioso
A criança deve ser pois entendida, hoje em dia, como um bem precioso, o que não significa que se deixe ser alimentada a chupa-chupa ou que se lhe permita que pontapeie raivosamente os adultos que a contrariem.
Significa que, para que cresça saudável, a sociedade deve assegurar-lhe as condições de alimentação, higiene, educação, apoio integrado na prevenção e tratamento da doença, consagrados através do direito a uma família, a uma escola, a um médico e à humanização dos cuidados nas instituições de saúde.
São direitos que visam permitir-lhe o direito maior ao seu desenvolvimento físico e psíquico, que permita revelar todas as suas potencialidades.
Os primeiros anos da sua vida são particularmente decisivos. A experiência quotidiana de uma criança afecta o desenvolvimento estrutural e funcional do seu cérebro, incluindo a inteligência e personalidade. Os cuidados de inferior qualidade na família ou fora dela podem ter um efeito deletério na linguagem, desenvolvimento social e futura performance escolar. A Academia Americana de Pediatria editou recentemente um documento em que veicula as suas preocupações quanto à qualidade desses cuidados em muitas das creches ou amas, onde as crianças ficam colocadas desde muito cedo.
Penso assim, que é no seio da família (biológica ou de adopção) que a criança melhor fica nos primeiros 2 anos de vida, desde que esta lhe proporcione as condições adequadas de afecto e estímulo.
A lei portuguesa de protecção à parentalidade (entendendo-se aqui os direitos e deveres de mães e pais para com os filhos) não sendo tão avançada como as dos países nórdicos, garante com segurança alguma flexibilidade de trabalho e reintegração profissional da mãe ou pai que tenham escolhido permanecer junto do filho após o período da licença de maternidade, embora não garanta uma remuneração directa para tal tarefa.
Será esta a explicação do facto de tantas crianças frequentarem tão precocemente creches e amas? E como se explica que a partir das 12 semanas só cerca de 50% das mães continuem a amamentar? (sabendo-se hoje que o aleitamento materno prolongado é factor protector de obesidade, isto num país com a duvidosa notoriedade de estar no pelotão da frente dos países europeus no que concerne à obesidade entre os 7-9 anos).
Estamos pois perante um problema prático de implementação das leis, principalmente em mulheres com profissões liberais ou em cargos profissionais relevantes e muito competitivos ou no extremo oposto mulheres em situação ilegal ou com grande precariedade de emprego.
O problema é também cultural. A mulher foi-se gradualmente afirmando no mercado de trabalho e chega à decisão de ser mãe cada vez mais tarde, pela preocupação de que este novo papel possa prejudicar os direitos entretanto adquiridos na esfera profissional.
O papel do pai como sustento único ou principal da família esvai-se neste contexto em que o aporte orçamental é trazido pelos dois em partes iguais.
Mas, por fenómenos culturais continua, mesmo com a vinda de um filho, a manter o papel tradicional e a ficar longe da intervenção directa na sua formação nos primeiros tempos da vida, o que é lamentável pois há estudos efectuados que demonstram que as crianças cujos pais estiveram directamente envolvidos nos seus cuidados na infância, entram para a escola com um QI mais elevado, melhor sentido de humor e uma auto-imagem mais forte.
Está, pois, na hora de os pais, aproveitando os seus direitos, virem também para casa, quando as mães não puderem ou não quiserem aí permanecer a tomar conta do filho.
As crianças não têm lobbies, não votam, não se manifestam ou fazem muito barulho em frente às câmaras (barulho só à noite quando os pais querem dormir).
As crianças sofrem em silêncio os atentados que se produzem diariamente ao seu direito a uma infância feliz.
A defesa da criança passa por continuadamente alertar e sensibilizar os governos, as autoridades responsáveis e a sociedade civil a tomar posição sobre o assunto.
Está pois na hora de olhar para a criança com a atenção que ela merece. Uma sociedade e um estado surdos para essas necessidades não estão preocupados em construir um futuro melhor e arriscam-se a ser condenados pelas próximas gerações por omissão e negligência.
Dr. Gonçalo Cordeiro Ferreira
Presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria

