Prevenção, tratamento dirigido e tratamento sintomático » Como lidar com a gripe
As células humanas têm um mecanismo responsável pela entrada e saída do vírus – os receptores celulares aos quais se liga a hemaglutinina. A neuraminidase é indispensável à libertação do vírus das células infectadas ao cortar a ligação entre esses receptores e a hemaglutinina.
Ora, «os fármacos inibidores da neuraminidase vão impedir a saída do vírus da célula, através da inibição da neuraminidase. Assim, evita-se que os vírus se libertem, que infectem as células vizinhas e sejam expelidas nas secreções respiratórias», descreve Filipe Froes.
Sem a influência dos inibidores da neuraminidase, «as primeiras células infectadas produzem milhares de cópias do vírus, vindo a falecer durante este processo de replicação viral. Depois, estes vírus libertam-se, vão penetrar as células e os tecidos vizinhos, sendo expelidas nas secreções brônquicas, através do falar, do tossir ou do espirrar», explica ainda o especialista.
Já a quantidade de medicamentos de tratamento sintomático é bem mais vasta. Os principais tipos são: os descongestionantes nasais, os antitússicos, os antipiréticos, os anti-inflamatórios e os anti-histamínicos.
A febre e as dores (de cabeça e musculares) são os principais sintomas da gripe, constituindo-se como um factor de desconforto e até de descompensação de uma outra doença, nomeadamente as cardíacas ou a diabetes.
«Os antipiréticos, como por exemplo o paracetamol, ou outros anti-inflamatórios são mais indicados para atenuar a febre e as dores», afirma o pneumologista, que continua:
«Se as pessoas referirem muitas queixas nasais, vamos dar medicamentos que descongestionam o nariz, podendo ser de administração local/tópica ou por via oral.»
Estes fármacos reduzem a obstrução no nariz, facilitam a drenagem e ventilação e, assim, diminuem a sensação de «nariz entupido».
Geralmente, os anti-histamínicos também actuam como antitússicos e descongestionantes nasais, uma vez que, como refere Filipe Froes, «vão inibir um dos mediadores inflamatórios – a histamina – que tem actividade ao nível da congestão nasal e do aumento da tosse». Assim, reduzem o corrimento nasal, a irritação dos olhos, os espirros e a tosse.
Por seu turno, os antitússicos de acção central, que entram na composição de alguns antigripais, mas não trazem uma acção benéfica para o alívio dos outros sintomas da gripe.
Atenção às nefastas repercussões da gripe
«É preciso ter em atenção que a gripe pode descompensar outras doenças previamente existentes ou evoluir para complicações graves, como as infecções traqueobrônquicas e a pneumonia», avisa Filipe Froes. É de destacar que a principal causa de mortalidade associada à gripe não é a gripe em si, mas as complicações e descompensações dela decorrentes.
«Vivemos continuamente no equilíbrio entre os microrganismos que nos podem provocar doenças e os nossos mecanismos de defesa. Se a gripe destruir as nossas defesas, os “exércitos bacterianos” avançam e provocam infecções bacterianas secundárias, traqueobrônquicas (ao nível da traqueia e brônquios) e, se forem no pulmão, podem evoluir para pneumonia», salienta o pneumologista. É aqui, e apenas em caso de infecção bacteriana, que se deve recorrer aos antibióticos.
Como sustenta Filipe Froes, «os antibióticos não têm qualquer acção contra o vírus da gripe, pelo que só têm indicação quando há complicações bacterianas, ou seja, quando, depois de alguns dias, a febre persiste ou agrava, a expectoração aumenta e torna-se mais purulenta. Nestes casos, o aparecimento de falta de ar sugere pneumonia».
Antibióticos: eficazes quando adequados
Os antibióticos servem para combater as infecções bacterianas, mas o número de bactérias resistentes a estes fármacos tem vindo a crescer e, assim, infecções que há alguns anos eram facilmente combatidas, amanhã poderão ser causa de morte.
Mas por que está isto a acontecer? Essencialmente, devido ao mau uso dos antibióticos que está a permitir que as bactérias «aprendam» a tornar-se resistentes. A grande maioria das pessoas não sabe que ao automedicar-se está a colocar em risco a sua possibilidade de tratamento no futuro.
Um estudo recente dos laboratórios Pfizer, destinado a conhecer os hábitos dos portugueses relativos ao uso dos antibióticos, demonstra que 43% dos inquiridos não sabe em que situações o uso de antibióticos é inadequado e 22% acha que deve tomar antibióticos para combater uma gripe.
Ora, sendo a gripe uma doença viral, os antibióticos não estão indicados para o seu tratamento e apenas se poderá recorrer a eles no caso de surgir uma infecção bacteriana secundária.

