Peste e SIDA: dois flagelos desencontrados no tempo - Médicos de Portugal

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Peste e SIDA: dois flagelos desencontrados no tempo

1 Maio, 2005 0

A cidade de Santa Maria da Feira comemora este ano os 500 anos da Festa das Fogaceiras. Esta celebração, de carácter religioso, remonta ao início do século XVI e a sua origem está associada à peste que, naquela época, assolou Portugal.

Para acabar com a mortandade dos Feirenses, os Condes do Castelo e da Feira apelaram ao mártir S. Sebastião e fizeram a promessa de que todos os anos iriam realizar uma festa em seu louvor, em que o «voto» seria a fogaça – um bolo cuja forma lembra as ameias da torre de um castelo.

Assim, desde 1505, a cada 20 de Janeiro, salvo muito raras excepções, a promessa tem sido cumprida. E já lá vão cinco séculos! No cortejo da procissão, as fogaceiras – meninas vestidas de branco – levam sobre as cabeças as «fogaças do voto» até à igreja matriz, para serem benzidas e depois entregues às autoridades política e militar, que têm jurisdição sobre o Município de Santa Maria da Feira. Os populares juntam-se e as fogaças são vendidas em leilão.

Para as comemorações dos 500 anos da Festa das Fogaceiras foi elaborado um vasto programa de actividades religiosas, sociais, culturais e desportivas, que tiveram início em 2004 e irão decorrer até ao final do presente ano.

Um dos eventos já decorridos, a 30 de Novembro do ano passado, foi o seminário «Infecção em VIH/SIDA», uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira (CMSMF), do Hospital de S. Sebastião e da Escola Superior de Biotecnologia, da Universidade Católica Portuguesa.

A Medicina & Saúde® quis saber o que motivou a discussão sobre a SIDA no âmbito de uma celebração que, historicamente, está associada à peste da Idade Média.

Segundo Alfredo Henriques, presidente da CMSMF, «nada melhor do que iniciar as festividades abordando o tema da SIDA.
A ideia da organização deste seminário surge, exactamente, pela semelhança da actual peste que é a SIDA com a peste da Idade Média, porque nos parece que o problema da SIDA em Portugal e no mundo, neste momento, será muito parecido com o que se passava então com a peste».

O Dr. João Gregório, director clínico do Hospital de S. Sebastião, referiu que «o termo “peste” é pouco apropriado» para definir a epidemia que se propagou na Idade Média, «porque se designava por “peste” as infecções prevalecentes com agentes que não eram identificados. Hoje, com o avanço da ciência, esses agentes infecciosos estão muito bem-identificados. A SIDA, o que tem de semelhante é o facto de ser uma pandemia, ou seja, o facto de atingir todo o mundo com grande prevalência, de uma forma mais ou menos sustentada, e só nesse sentido é que pode ser também considerada uma peste».

Aproveitando o paralelismo entre os dois flagelos que, embora desencontrados no tempo, encontram semelhanças na rápida disseminação mundial, no elevado grau de mortalidade e na segregação dos indivíduos infectados, as entidades responsáveis pela organização do seminário quiseram chamar a atenção para a necessidade de lutar contra a SIDA.

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