Peste e SIDA: dois flagelos desencontrados no tempo
A Peste
Na Idade Média, surgiu a pandemia da peste, doença infecciosa provocada pelo bacilo de Yersin, transmitida aos seres humanos por picadas das pulgas e mordeduras dos ratos.
Na Europa do século XIV, o surto de peste atacou primeiro a Sicília, em 1347, e nos anos seguintes espalhou-se rapidamente por França, Inglaterra, Itália, Península Ibérica e Europa Central, sobretudo nas cidades. Entre outros factores, a pobreza generalizada, associada à falta de condições sanitárias e hábitos de higiene, contribuíram para a disseminação desta doença, com elevado índice de mortalidade na ausência de tratamento.
Estima-se que, só na Europa Ocidental, tenha vitimado cerca de 25 milhões de pessoas, aproximadamente um terço da sua população.
A epidemia conheceu vários surtos nos séculos seguintes, mas foi progressivamente controlada e hoje está praticamente erradicada – mas não totalmente. A Organização Mundial de Saúde estima a ocorrência de 1000 a 3000 novos casos de peste por ano, sobretudo em zonas subdesenvolvidas na América do Sul, África e Ásia.
Para acabar com a mortandade dos Feirenses, os Condes do Castelo e da Feira apelaram ao mártir S. Sebastião e fizeram a promessa de que todos os anos iriam realizar uma festa em seu louvor, em que o «voto» seria a fogaça – um bolo cuja forma lembra as ameias da torre de um castelo.
Assim, desde 1505, a cada 20 de Janeiro, salvo muito raras excepções, a promessa tem sido cumprida. E já lá vão cinco séculos! No cortejo da procissão, as fogaceiras – meninas vestidas de branco – levam sobre as cabeças as «fogaças do voto» até à igreja matriz, para serem benzidas e depois entregues às autoridades política e militar, que têm jurisdição sobre o Município de Santa Maria da Feira. Os populares juntam-se e as fogaças são vendidas em leilão.
Para as comemorações dos 500 anos da Festa das Fogaceiras foi elaborado um vasto programa de actividades religiosas, sociais, culturais e desportivas, que tiveram início em 2004 e irão decorrer até ao final do presente ano.
Um dos eventos já decorridos, a 30 de Novembro do ano passado, foi o seminário «Infecção em VIH/SIDA», uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira (CMSMF), do Hospital de S. Sebastião e da Escola Superior de Biotecnologia, da Universidade Católica Portuguesa.
A Medicina & Saúde® quis saber o que motivou a discussão sobre a SIDA no âmbito de uma celebração que, historicamente, está associada à peste da Idade Média.
Segundo Alfredo Henriques, presidente da CMSMF, «nada melhor do que iniciar as festividades abordando o tema da SIDA.
A ideia da organização deste seminário surge, exactamente, pela semelhança da actual peste que é a SIDA com a peste da Idade Média, porque nos parece que o problema da SIDA em Portugal e no mundo, neste momento, será muito parecido com o que se passava então com a peste».
O Dr. João Gregório, director clínico do Hospital de S. Sebastião, referiu que «o termo “peste” é pouco apropriado» para definir a epidemia que se propagou na Idade Média, «porque se designava por “peste” as infecções prevalecentes com agentes que não eram identificados. Hoje, com o avanço da ciência, esses agentes infecciosos estão muito bem-identificados. A SIDA, o que tem de semelhante é o facto de ser uma pandemia, ou seja, o facto de atingir todo o mundo com grande prevalência, de uma forma mais ou menos sustentada, e só nesse sentido é que pode ser também considerada uma peste».
Aproveitando o paralelismo entre os dois flagelos que, embora desencontrados no tempo, encontram semelhanças na rápida disseminação mundial, no elevado grau de mortalidade e na segregação dos indivíduos infectados, as entidades responsáveis pela organização do seminário quiseram chamar a atenção para a necessidade de lutar contra a SIDA.

