Exercício & dores musculares: No pain no gain, hard pain… no gains!
Quem nunca sentiu nos dois ou três dias seguintes à realização de exercício dores musculares? É muito frequente, depois do futebol de fim-de-semana ou da corrida de Domingo, sentir as famosas dores musculares, também designadas por sensações retardadas de desconforto muscular.
Estou cansadíssimo!” é o comentário usual nos dias seguintes ao jogo. Apesar de o referido desconforto muscular ser sentido por todos aqueles que, de forma mais ou menos sistemática, praticam exercício, apresenta-se mais exuberante em indivíduos sedentários ou que já não realizam actividade física há algum tempo. Diz-se, portanto, que as dores musculares resultam da realização de exercício muito intenso e/ou de um tipo de exercício menos habitual. Apresentam-se realmente severas quando o exercício realizado implica a preponderância das designadas contracções musculares excêntricas, típicas por exemplo de uma travagem rápida para mudar de direcção ou sentido.
Este tipo de solicitação impõe níveis de tensão muito elevados enquanto o músculo está a alongar, resultando num conjunto de alterações, entre as quais a perda da integridade das fibras musculares.
Quando os exercícios realizados implicam consideravelmente a referida solicitação muscular excêntrica, por exemplo num jogo de futebol, de squash ou de ténis e, para agravar o panorama, o indivíduo não estiver habituado ou já não jogar há algum tempo, não só fica muscularmente fatigado como perde a capacidade funcional por alguns dias, ficando com os músculos doridos, intumescidos e rígidos.
A razão para estas consequências adicionais é que este tipo de contracções induz micro-lesões nas fibras musculares. Não confundamos estas micro-lesões com as lesões típicas dos desportistas que têm, normalmente, uma origem traumática.
Não nos referimos às rupturas ou outro tipo de lesões musculares detectáveis a uma escala macroscópica. O desconforto muscular induzido pelo exercício intenso e/ou inabitual de que hoje falamos resulta de alterações com carácter focal (só algumas fibras sofrem e normalmente as mais débeis) a uma escala microscópica.
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O papel da inflamação
Decorrente destas alterações estruturais em algumas fibras musculares, surge um aumento da resposta inflamatória com libertação de alguns mediadores inflamatórios após o exercício, aos quais as fibras nervosas são sensíveis, e que promovem dor e desconforto. Dito desta forma, pode parecer que estamos a falar de uma entidade patológica e, nesta medida, a evitar! Mas serão esta lesão muscular e inflamação efectivamente más? Deverão ser evitadas? E na impossibilidade de evitar, o que fazer? Se aplicarmos uma frase célebre que encaixa na perfeição quando pretendermos ilustrar a resposta dos sistemas biológicos aos diferentes estímulos que lhe são colocados, e o tecido muscular não foge certamente à regra, diríamos que “a dose faz o veneno”.
O certo é que as fibras lesadas, em princípio mais fracas, são substituídas por outras mais capazes. Mais, sabe-se hoje em dia que a inflamação é parte fundamental na regeneração tecidual após estímulos desta natureza. A duração da referida perda funcional, quando resultado de um exercício muito severo, pode ir até uma semana.
Por outro lado, não é ainda hoje clara e inequívoca, antes controversa, a utilidade de meios anti inflamatórios ou antioxidantes (uma vez que a produção de radicais livres induzida pelo exercício parece estar associada ao processo inflamatório) contra os efeitos da realização deste tipo de exercício. Uma medida certamente consensual para evitar a exuberância do desconforto é o treino prévio. Está demonstrado que em indivíduos treinados, a sensação retardada de desconforto muscular bem como alterações num conjunto de marcadores bioquímicos e funcionais indicadores deste fenómeno resultante da realização de exercício é muito menos acentuada. Também por isto vale a pena treinar com regularidade…
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