Células estaminais neurais no caminho da reparação cerebral
Um grupo de 14 investigadores do Centro de Neurociências da Universidade de Coimbra está a desenvolver um trabalho na área da “reparação cerebral”. Se as expectativas se confirmarem, a utilização de células estaminais neurais poderá significar um passo à frente no tratamento das doenças neurodegenerativas.
As doenças do cérebro, no seu conjunto, afectam, actualmente, milhões de pessoas em todo o mundo. Estas patologias, para as quais ainda não existe uma cura efectiva – além de serem uma das principais causas de sofrimento – consomem uma fatia elevada do orçamento em saúde. Até ao momento, as estratégias terapêuticas desenvolvidas visam, apenas, o alívio dos sintomas, não garantindo a recuperação da zona cerebral afectada.
Movidos pelo objectivo de encontrar uma solução para esta lacuna, 14 investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra (CNC) – nove doutorados e cinco alunos de Doutoramento – desenharam uma metodologia de reparação cerebral, com recurso a nichos de células estaminais neurais (residentes em duas zonas do cérebro). João Malva, coordenador deste grupo e investigador principal da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e do CNC, acredita que, no futuro, este trabalho poderá abrir caminho à substituição de “células degeneradas por novas células”, com capacidade de desempenharem as funções cerebrais perdidas.
Volvidos vinte anos após a descoberta de nichos de células estaminais neurais, em cérebros de recém-nascidos e adultos – embora, nestes últimos, tenda a diminuir com a idade -, os cientistas aperceberam-se de que a chave para algumas doenças poderia radicar na utilização destas células.
O grupo coordenado por João Malva agarrou esta ideia e lançou as bases de um projecto, cuja principal aposta foi a identificação de estratégias neuroprotectoras e neurogénicas conducentes à reparação cerebral.
As células estaminais neurais, por serem imaturas e relativamente plásticas, têm um potencial de diferenciação em vários tipos celulares e expandem-se indefinidamente. “Quando multiplicadas e pré-tratadas in vitro, com um factor que promove a diferenciação, poderão ser posteriormente transplantadas para a zona lesada do cérebro”, afirma o investigador. E continua: “Se, conceptualmente, percebermos o mecanismo de diferenciação, podemos induzir estratégias de migração para as zonas cerebrais onde se registam défices de neurónios.”
Apesar de ainda não passar de uma mera “ficção científica”, usando as palavras do investigador, a longo prazo, está prevista a utilização deste método em patologias mais simples, como a doença de Parkinson ou Esclerose Múltipla. Mais tarde, em “patologias mais complexas, nomeadamente a epilepsia, lesões isquémicas cerebrais e a doença de Alzheimer”. João Malva ressalva, no entanto, que “a aplicabilidade destes conceitos” ainda está longe de ser alcançada. Por ora, os investigadores estão interessados em conhecer a fundo a biologia e o comportamento destas células.
CSI: Cérebro Sob Investigação
Com base em modelos de experimentação animal, os investigadores estão a percorrer todos os passos na manipulação destas células estaminais neurais. Recorrendo a culturas in vitro destas células, extraídas de ratos, o grupo de investigação está a tentar perceber como é que, através do processo de diferenciação, se formam novos neurónios.

