Células estaminais neurais no caminho da reparação cerebral
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É, ainda, objecto de estudo o modo como os recém-formados neurónios “migram dentro do cérebro, como estabelecem sinapses (conexões entre neurónios) e, a partir daí, como se integram funcionalmente nas redes”. Concluídas estas etapas, os investigadores estarão, “finalmente, na posse de ferramentas que lhes permitam, caso a caso, desenhar estratégias de reparação cerebral”.
No âmbito desta investigação, os especialistas desenvolveram uma tecnologia, inédita em todo o mundo, que se baseia “na análise de flutuações de cálcio intracelular em células individuais”.
Mediante a aplicação de fármacos, verificou-se que as células respondiam de forma diferenciada aos estímulos. A partir desta observação, e conhecendo o perfil de resposta das células e os seus marcadores, conseguiram identificar funcionalmente diferentes tipos de células: neurónios, astrócitos e oligodendrócitos. “Estas conclusões abrem uma nova linha de investigação na farmacologia da neurogénese e na identificação de factores pró-neurogénicos, permitindo-nos descortinar de que forma as células podem ser afectadas positivamente por alguns fármacos”, defende.
Paralelamente à experimentação in vitro, os investigadores estão a estudar a reparação in vivo. Para isso, utilizaram um modelo de animal epiléptico, que apresenta morte cerebral no hipocampo.
Nesta área, foram transplantadas células estaminais neurais fluorescentes, retiradas de ratos transgénicos, e tratadas com factor próneurogénico, de forma a induzir a diferenciação.
“Reparámos que as células têm capacidade de integrar o tecido, embora, pelo menos para já, não possamos ainda avaliar o sucesso do processo de diferenciação funcional de novos neurónios.”
Considera o especialista que estas “células são ainda muito enigmáticas”, o que deixa muitas hipóteses em aberto. Porém, “esta fase de investigação levanta uma esperança na utilização futura das células estaminais neurais em seres humanos”.
Principais células cerebrais
– Neurónios: principais células funcionais do cérebro, que cooperam em redes integradas. Os neurónios conduzem a actividade eléctrica de umas células para as outras e libertam mensageiros químicos, que produzem respostas entre células. “É o funcionamento integrado destas redes de neurónios que é responsável pela essência do funcionamento do cérebro e, em última análise, pelo controlo de todas as funções do corpo humano”, defende João Malva.
– Astrócitos: células que ajudam os neurónios a manterem-se vivos. São uma espécie de “limpa impurezas”, porque “removem o excesso de moléculas neurotransmissoras que se acumulam nas sinapses (ligações entre neurónios)”. Esclarece o investigador que, “com as sinapses livres, a comunicação flúi mais rapidamente”, adiantando, ainda, que “os astrócitos são também essenciais no complemento metabólico dos neurónios”.
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– Oligodendrócitos: são as células que ajudam os neurónios a conduzirem a informação nervosa de modo mais eficiente. Os neurónios – responsáveis pelo envio de mensagens dentro do próprio cérebro e na sua ligação com os sistemas periféricos – possuem uma estrutura especializada, os axónios. “Estes estão incumbidos de enviar sinais eléctricos de uma célula para a outra. Acontece, porém, que quando a distância entre célula emissora e célula receptora é muito grande a velocidade de condução do sinal através do axónio pode tornar-se limitada”. Assim, os oligodendrócitos formam uma camada gordurosa à volta dos axónios: a mielina. Esta possui funções semelhantes à camada isoladora do fio de cobre de um telefone. Contudo, esta “mielinização processa-se de forma irregular, com intervalos não isolados”. Os sinais eléctricos “saltam” entre os nódulos não mielinizados, “o que permite o envio mais rápido de mensagens em zonas distantes do cérebro. A degeneração e morte dos oligodendrócitos está na base do desenvolvimento da esclerose múltipla”, explica João Malva.

