Atenção aos perigos escondidos na praia
O areal dourado convida ao repouso, a frescura do mar pede umas vigorosas braçadas, o sol reconforta corpo e espírito cansados do rigor do Inverno. Chegou, finalmente, o tempo da praia, porém, é tempo também de lembrar que «Há mar e mar, há ir e voltar». Escolher uma praia vigiada, respeitar os sinais das bandeiras, evitar demoradas exposições ao sol e cumprir as indicações dos nadadores-salvadores são alertas antigos, do conhecimento geral, mas, mesmo assim, todos os anos repetem-se os acidentes fatais, sinal evidente da quebra das regras básicas de segurança.
De acordo com as estatísticas, nos últimos nove anos registaram-se 217 mortes em praias sem vigilância e 73 nas áreas vigiadas, números que não deixam margem para dúvidas: por parte das autoridades marítimas, continua a ser pertinente levar a cabo acções de sensibilização, de forma a evitar situações de risco, sendo imprescindível aos banhistas manter o bom senso.
A chamada de atenção prende-se ainda com outro tipo de ocorrências, algumas de menor gravidade, outras, todavia, bastante preocupantes, visto poderem deixar marcas irreversíveis para o resto da vida. É o caso das lesões da coluna vertebral provocadas pelos saltos para a água.
A este propósito, o Comandante Oliveira Bernardo, relações públicas do Instituto de Socorros a Náufragos e director do Núcleo de Formação daquele organismo, alerta:
«É muito comum pensar-se que estes acidentes acontecem nos rios, em zonas de pouca visibilidade ou são provocados por saltos de grandes alturas, mas não é forçoso que assim seja. Eles dão-se, com relativa frequência, na praia, em locais em que desconhecemos a existência de obstáculos ou de profundidade inadequada; nem sequer é necessário saltar de uma plataforma elevada, pontão ou rocha. Tenho conhecimento directo de jovens com tetraplegias completas resultantes de saltos em que as circunstâncias pareciam, à primeira vista, perfeitamente normais, porém, de repente, alguém se atravessou no caminho, formou-se uma pequena onda geradora de desequilíbrio, o mar baixou, o próprio nadador não colocou as mãos à frente, na posição correcta, o salto não correu bem e daí podem resultar lesões terríveis ao nível das vértebras cervicais.»
Segundo aquele responsável, também nunca é demais chamar a atenção dos banhistas para os problemas que advêm da desidratação.
«Os cidadãos estrangeiros, pouco familiarizados com as nossas temperaturas, as crianças e os idosos são particularmente afectados», por isso, Oliveira Bernardo recomenda que haja «um cuidado suplementar em reduzir a exposição ao sol e ingerir líquidos levemente açucarados, água e fruta, para ajudar a manter o organismo hidratado».
A hipertermia, o aumento da temperatura corporal causado pelo excesso de número de horas ao sol, é outra situação frequente. Deve ser controlada, de contrário, devido à falta de sal provocada pela sudação, agravar-se-á e chegará à insolação.
A hipotermia, diminuição da temperatura do corpo, é mais comum nas praias do Norte, no entanto, registam-se casos um pouco por toda a nossa costa. Envolvem na sua maioria crianças porque, como todos sabemos, a água nunca está fria, o suficiente, para abandonarem a brincadeira.
Encontros indesejáveis
Na água escondem-se, não raras vezes, companheiros indesejáveis ainda desconhecidos de muitos banhistas: peixe-aranha, ouriço-do-mar, alforreca e anémona.
«A picada do peixe-aranha torna-se bastante dolorosa, devido à composição química do veneno, mas uma vez aplicado um anestésico depressa se alivia esse mal-estar. Convém, apesar disso, ter atenção, pois, alguns fragmentos da espinha do peixe podem ficar cravados na pele e desencadear uma infecção. Sendo assim, será aconselhável a intervenção médica. Quando, porventura, a picada ocorre próximo de um nervo chega a paralisá-lo, causando lesões neurológicas», explica Oliveira Bernardo.
O nosso interlocutor alerta, por outro lado, para a picada do ouriço-do-mar, cuja dor é similar. Além disso, torna-se necessário verificar se existem resquícios de espinhos partidos.
As medusas, conhecidas como alforrecas, possuem órgãos urticários tóxicos capazes de provocar irritações cutâneas, sobretudo, em crianças e adultos com peles sensíveis, daí que o mais prudente seja evitar qualquer contacto com estes exemplares marinhos em forma de campânula.
Cuidados redobrados devem ter os banhistas das praias da Madeira e dos Açores, onde existem, em significativa abundância, espécies de outra família, designadas a nível local por «água-viva» e «caravela-portuguesa», que causam queimaduras e lesões graves.
Como refere Oliveira Bernardo, «a dor é de tal modo intensa que o nadador, por vezes, vê-se em dificuldades, correndo risco de afogamento».
As anémonas, coloridas e vistosas, escondidas nas poças de água, não são, igualmente, companhia aconselhável para crianças e adultos com hipersensibilidade cutânea. Os agentes irritantes que libertam provocam reacções violentas, obrigando a pessoa afectada a necessitar de acompanhamento médico.
Oliveira Bernardo faz, ainda, questão de deixar um último alerta para uma situação que, embora não esteja directamente relacionada com a prática da actividade balnear, acontece com frequência nas zonas limítrofes. Trata-se da queda em altura das falésias, de que «resulta um número de óbitos impressionante, o dobro ou o triplo dos acidentes mortais ocorridos nas praias durante o Verão».

