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Doenças cardiovasculares são principal causa de morte nos países desenvolvidos

1 Dezembro, 2004 0

Hipertensão arterial, colesterol, tabagismo e dietas hipercalóricas: saiba como proteger o seu coração dos factores de risco cardiovasculares. As dicas são dadas por quatro especialistas da Fundação Portuguesa de Cardiologia, instituição que está em plena comemoração do 25.º aniversário.

«A hipertensão arterial é o problema de saúde pública número um», avança o Prof. Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC). A prová–lo estão as estimativas do Banco Mundial e da Organização Mundial de Saúde, «que prevêem que no ano de 2020 as doenças cardiovasculares continuem a ser a principal causa de morte e incapacidade a nível mundial», fundamenta o cardiologista. Em Portugal, existem 400 mil hipertensos, sendo que apenas 11% do total de doentes tratados estão controlados.

Considera-se que um indivíduo é hipertenso quando tem uma pressão arterial repetidamente superior ou igual a 140 mgHg para a sistólica e/ou 90 mgHg para a diastólica.

«No entanto, para certos doentes, como os diabéticos, renais ou com doença cardiovascular, recomenda-se que devam ter valores mais baixos», explica o especia­lista, fundamentando:

«Está bem provado que o risco cardiovascular aumenta à medida que os níveis de pressão arterial são mais elevados».

Por outro lado, os grandes estudos de tratamento da hipertensão arterial comprovam ser possível reduzir o risco de acidente vascular cerebral em mais de 40%, de insuficiência cardíaca em 50% e de enfarte do miocárdio em 26%.

Os riscos associados à hipertensão arterial são claros, provocando lesões nos órgãos-alvo, ou seja, «no cérebro, no coração e no rim».

Por exemplo, um acidente vascular cerebral (AVC), hoje a principal causa de morte e incapacidade em Portugal, ocorre quando uma das artérias que levam o sangue ao cérebro bloqueia, quer devido à formação de um coágulo quer a ruptura arterial, deixando o cérebro de receber o fluxo de que necessita.

«As células nervosas da área afectada deixam de funcionar, podendo morrer em poucos minutos», diz Manuel Carrageta, continuando:

«As partes do corpo comandadas por aquelas células ficam paralisadas total ou parcialmente, muitas vezes para o resto da vida.»

De acordo com o cardiologista, «cerca de 70% dos AVC são devidos à hipertensão arterial», sendo este um problema largamente evitável. Daí que considere que a prevenção e o controlo desta «constitui um desafio de saúde pública que deve ser enfrentado com o maior vigor pela comunidade médica e pelo Serviço Nacional de Saúde».

Controlar ou, idealmente, evitar a hipertensão arterial implica grande empe­nho e motivação por parte do doente. Isto porque terão de ser introduzidas alterações no estilo de vida, que implicam «perder o excesso de peso, reduzir o consumo de álcool e de sal e praticar regularmente actividade física, bem como, em muitos casos, fazer medicação diária, durante muitos anos», refere o especialista.

Existem razões para se pensar que o sal desempenha um papel especial neste grande problema de saúde pública, dado que o consumo médio por dia, em Portugal, é de cerca de 18 grama, bastante superior aos valores consumidos nos restantes países da União Europeia.
«Bastaria reduzir o consumo diário de sal em 3 grama para ocorrer uma descida de cerca de 10 mm/Hg da pressão arterial, que se traduziria numa redução na incidência de AVC de 22% e de doença coronária de 16%», avança Manuel Carrageta.

OMS: colesterol mata seis milhões de pessoas todos os anos

De acordo com a Fundação Portuguesa de Cardiologia, cerca de 60% dos portugueses têm colesterol em excesso, acima dos valores recomendados pelas organizações científicas europeias e norte-americanas, os 190 mm/dl. Cerca de 68% têm valores iguais ou superiores a 190 mg/dl e um grupo de 24% apresenta números superiores a 240 mg/dl.

Para o presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, Dr. Pedro Marques da Silva, «qualquer indivíduo com 30 anos deve conhecer o seu perfil lipídico, onde estão incluídos os valores de colesterol». Isto porque o risco de desenvolver uma doença coronária vai aumentando à medida que os valores de colesterol aumentam no sangue.

Contudo, frisa Pedro Marques da Silva, «convém não esquecer que o ambiente sociocultural e económico mudou, o seden­tarismo é cada vez mais marcante e o contacto com novas etnias e hábitos de vida é maior», factores que promovem o aumento da incidência de factores de risco para a doença cardiovascular, tais como o colesterol.

Este é um produto natural, produzido pelo organismo. Trata-se de uma gordura que entra na membrana de todas as células do corpo, para além de ser um elemento fundamental para a produção de determinadas hormonas ou da formação dos sais biliares.

Existem dois tipos de colesterol: o HDL, ou bom e o LDL, ou mau. O primeiro tem um papel de limpeza, retirando a gordura das paredes das artérias. O segundo é, precisamente, o que se deposita no interior dos vasos, conduzindo à aterosclerose.

«Quando em quantidade excessiva o colesterol torna-se um potencial risco para a saúde», avança Pedro Marques da Silva, «podendo ser responsável pelo aparecimento de doenças cardiovasculares, como enfarte do miocárdio, angina de peito e acidente vascular cerebral, entre outros».

Isto acontece porque, quando os níveis de colesterol estão demasiado altos, ace­lera-se o processo de desenvolvimento dos depósitos de gordura nas paredes das artérias.

Este mecanismo vai dar origem a placas de gordura no interior das artérias, placas estas que, gradualmente, vão obstruindo estes canais, lenta e progressivamente, tornando cada vez mais difícil a passagem do sangue. A este fenómeno chama-se aterosclerose.

Pedro Marques da Silva aconselha a tomar medidas, começando por uma dieta equilibrada:

«Deve dar-se preferência às gorduras monoinsaturadas, em detrimento das gorduras polinsaturadas.»

Por exemplo, os molhos, a manteiga e o sal podem ser substituídos por ervas aromáticas, especiarias e sumo de limão, assim como iogurtes e queijos magros podem substituir cremes ácidos e a maionese.

Os métodos de confecção mais recomendados são o cozido, grelhado e assado, em vez dos fritos. No contexto da alimentação, Pedro Marques da Silva fala da «acessibilidade» do cidadão à saúde:

«Quando um médico ou o sistema de saúde fala na importância de comer peixe em relação à carne, o preço do peixe sobe de imediato, tornando-o inacessível a uma importante camada da população.»

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