Da normalidade à doença bipolar: porque oscilam as pessoas de humor ao longo do dia?
Visão psicanalítica das oscilações de humor
É normal as pessoas terem oscilações de humor ao longo do dia, desde que estas não afectem a sua saúde mental, explica Seabra Diniz, presidente da sociedade portuguesa de psicanálise A existência de oscilações deriva da vivência de momentos que geram bem-estar e de outros que induzem mal-estar, como por exemplo, desconforto ou irritação. Pode haver igualmente umaalternância entre um estado de humor entusiasta e outro pouco motivado. Segundo afirma, “o estado de humor de uma pessoa resulta de um equilíbrio de factores muito complexos, sendo um dos principais a relação entre o mundo interno da pessoa e o que se passa no exterior”.
De frisar que a forma como as pessoas reagem ao que lhes acontece varia em função da sua história. Daí que factores externos semelhantes possam gerar reacções distintas, esclarece.
Isto porque “estas são condicionadas pelas experiências anteriores, as sensações de bem-estar, perda, solidão, abandono, satisfação ou entusiasmo, explica o psicanalista”.
Especifica que a história individual de cada um acaba por criar zonas sensíveis condicionadoras da interpretação de certos sinais. “Deixa uma forma particular de interpretar determinados sinais que são pessoais, influenciando a forma como as pessoas reagem”.
As oscilações de humor podem ser condicionadas pelo perfil psicológico das pessoas, variando, por exemplo, com o seu grau de extroversão.
Um dos modelos que Seabra Diniz apresenta é o de pessoas introvertidas com dificuldade em gerir as suas emoções. Para o especialista, este tipo de indivíduos é susceptível de ter variações de humor, justamente devido ao seu perfil introvertido. “Os fantasmas e os aspectos inconscientes que as pessoas imaginam, pressupõem ou antecipam são muito importantes em psicanálise e vão influenciar a sua leitura acerca do que ocorre”, afirma. Dá o exemplo de uma pessoa que é tímida e que tem dificuldades em expressar as suas emoções. “Ela pode ter receio do que os outros irão pensar de si.
A questão que se deve colocar é: Porquê? Porque se habituaram a duvidar de si mesmas e se tornaram inseguras”. De acordo com Seabra Diniz, geralmente, esta insegurança tem por base a vivência de um conjunto de experiências em que este tipo de pessoa não sentiu interesse por parte dos outros em ser ouvida. A socialização das crianças pela família pode criar problemas de bem-estar psicológico a este nível. Até porque “muitos pais exigem dos seus filhos um conjunto de acções, dão instruções, mas não os ouvem”, remata.
Da timidez à agressividade
A lembrança de algo desagradável relacionado com experiências com certas pessoas pode propiciar um episódio de indisposição que reflecte raiva. “Como estes movimentos são muito violentos e espelham muito sofrimento, vencem a inibição e saem bruscamente sem filtro. As pessoas acabam por não medir as palavras e, depois, arrependem-se”, explica Seabra Diniz.
Embora, este estado de humor origine, posteriormente um estado de boa-disposição e inibição.
“Como disseram coisas de que se arrependem, ficam caladas”. Este estado de humor e postura culminam, com o decurso do tempo, com uma nova fase de irritação. Segundo o especialista, “estas pessoas controlam mal estes fluxos de humor e têm dificuldades de relação”.

