Cancro da Mama : “Um dia com cancro pode ser a diferença entre morrer ou viver”
Maria José Barata, 46 anos, esteticista, tinha uma vida normal até saber, há quatro anos atrás, que sofria de um cancro da mama. Na altura com dois filhos, um com vinte e outro com quatro anos, não se deixou abater pela notícia.
Apesar de ter retirado uma mama, abandonado a sua actividade profissional e mudado todos os seus hábitos, Maria José Barata é, hoje, uma mulher feliz. Efectuou uma reconstrução mamária e constitui um exemplo para as mulheres que enfrentam o mesmo problema, através da sua participação activa na Associação de Mulheres Mastectomizadas – Ame & Viva a Vida.
Fazia mamografias regularmente?
Confesso que não. Sempre fui a consultas, mas desde que o meu filho nasceu não tive o cuidado de fazer mamografias. Aparentemente não tinha queixas, mas quando deixei de amamentar comecei a emagrecer. Pensei que o meu corpo estava a voltar ao normal, mas pareceu-me que as minhas mamas não tinham emagrecido de uma forma uniforme.
Tinha uma covinha por baixo do mamilo da auréola mamária esquerda. Nessa altura, fui ao ginecologista, por rotina, e pedi para fazer uma mamografia. Quando fui fazê-la, comecei a perceber que algo de errado se passava. Saía da sala da mamografia, vinha para a ecografia, voltava para a mamografia e de novo para a ecografia. Neste impasse, pela porta entreaberta, vi uma ecografia. Ao perceber que era a minha pensei logo: tenho um cancro!
Qual a sua primeira reacção ao saber a notícia?
Não me recordo exactamente o que senti. Tenho noção de ter entrado no consultório, ver a médica e pedir-lhe: doutora, diga-me a verdade porque eu já sei o que se passa. Nesse momento uma lágrima atraiçoou-me. Respondeu-me que ainda não podia garantir nada porque teria de efectuar mais exames. O que eu queria era fugir dali…
Saí da clínica a correr em direcção ao meu carro, entrei, tombei a cabeça sobre o volante e chorei sem parar. Já em casa, falei com a minha filha e contei ao meu marido. Não acreditou. Julgou que eu estava a imaginar… Quando o exame chegou, abri-o. Alguns termos conhecia. Outros não. Mas foi o suficiente para perceber.
Teve a certeza absoluta, ao ver o resultado do exame, que tinha um cancro da mama?
Tive. Vi logo palavras como tumor com características de carcinoma e era evidente que seria maligno. Percebi imediatamente que não seria benigno. No dia seguinte fui à médica no centro de saúde, mostrar o exame. A médica disse-me que, ou um quarto, ou metade, ou a mama toda, iria ter que sair. Indicou-me de imediato um médico no Hospital do Desterro para ser seguida.
Já tinha noção que um dia com um cancro pode ser a diferença entre morrer ou viver. Temos é que saber se queremos viver ou não. Falei com o médico indicado, fui à consulta e fiz uma biopsia.
O seu marido nessa altura já estava mentalizado?
Não. O meu marido pensou sempre que não me podia acontecer, que não merecia… Por isso, decidi que deveria vir comigo à consulta e receber o resultado da biopsia. O médico disse-me que tinha de retirar a mama toda, com esvaziamento axilar, bem como fazer quimioterapia e radioterapia. Perguntou-me quando queria ser operada. Respondi-lhe: “Ontem!” Tempo é vida. Se tenho que ser operada o melhor é quanto antes. Um dia é muito tempo.
Na ocasião sentia-se mais preocupada consigo ou com os seus?
Pensei como seria possível ficar internada tendo um filho de quatro anos … e como iria contar aos meus pais. Quem gosta de viver preocupa-se consigo, mas é obvio que também estava preocupada com os meus filhos. Cheguei a pensar que ia morrer e que nunca mais ia vê-los…
Esses pensamentos eram recorrentes?
O primeiro grande choque foi pensar que ia morrer, mas depois comecei a lutar. Pensei que até podia morrer mas ia lutar até ao fim. Até ao último minuto. Mas também pensava muito nos meus pais. Só lhes contei na véspera de ser operada.
Não sentiu necessidade de procurar apoio externo?
Não, porque tinha a possibilidade, dentro das paredes da minha casa, de partilhar com o meu marido e a minha filha. Por isso considero-me uma mulher cheia de sorte. Até costumo dizer que o cancro para mim não foi mau porque me deu uma perspectiva de vida diferente. A vida é muito mais do que aqueles pequenos conflitos que arranjamos, ou que alimentamos. Cada dia é um dia, aproveitar mais, viver melhor.

