Cancro da Mama : “Um dia com cancro pode ser a diferença entre morrer ou viver”
Como foi a reacção do seu marido à alteração do seu corpo, após a mastectomia?
Quando cheguei a casa, após a operação, uma das primeiras coisas que fiz foi ver-me ao espelho e chamar o meu marido para que me visse. Disse-me: “Continuas a ser exactamente a mesma pessoa com uma mama, com duas ou sem nenhuma e isso não altera nada aquilo que sinto por ti”. Foi a maior prova de amor que uma mulher pode receber! Daí que não tenha afectado a nossa vida, excepto no facto de ter sido sempre muito independente e, a partir de então, tive de começar a pedir ajuda para tarefas domésticas. Mas nunca me senti mal amada.
Cada um imagina o cancro como quer. Eu imaginava-o como um bicho horrível, um monstro, que tinha dentro de mim, e que em cada dia me ia comendo um bocadinho e portanto eu queria era tirá-lo. Se me perguntar se gostava de me ver ao espelho depois de ser operada? Não! Se me perguntar se estava aliviada? Sim!
Qual foi o tratamento que efectuou, após a mastectomia?
Tive a sorte de não ser necessário fazer quimioterapia, nem radioterapia. Depois de chegar o resultado da operação, o médico chegou à conclusão que não seria necessário. Fiz outro tipo de terapia, a hormonoterapia. Provocou-me a menopausa e o envelhecimento precoce. Não que pensasse em ter outros filhos mas, como é sabido, a menopausa tem outras consequências. Ma para mim o mais importante era viver!
Quando efectuou a reconstrução mamária?
Ao fim de um ano e meio. Escolhi a forma mais complicada de ser operada… A reconstrução mamária foi efectuada com o meu músculo abdominal. Não fiz a reconstrução imediata porque, como em princípio iria ter que fazer radioterapia e quimioterapia, não me foi aconselhado. Usei uma prótese. Há próteses muito semelhantes à mama sã. Usei essa prótese externa que realmente não é visível, a não ser que o decote seja muito grande. Mesmo ao toque é muito semelhante.
Quais as situações que mais lhe custavam?
Ir à praia. Não comprei um fato de banho com prótese ajustável porque queria fazer a reconstrução.
Hoje em dia, quando se olha ao espelho, gosta do que vê?
Gosto. Sinto-me muito bem comigo e não me sinto diminuída, antes pelo contrário, sem me sentir superior a ninguém. Tenho mais amor pela minha vida. Aproveito muito melhor todos os momentos.
Associação das Mulheres Mastectomizadas – Ame e Viva a Vida
R. Nova do Desterro – Hospital do Desterro 1169 – 100 LISBOA
Tel.: 969 628 996 E-mail: amm_amevivavida@walla.com
Apesar de ter retirado uma mama, abandonado a sua actividade profissional e mudado todos os seus hábitos, Maria José Barata é, hoje, uma mulher feliz. Efectuou uma reconstrução mamária e constitui um exemplo para as mulheres que enfrentam o mesmo problema, através da sua participação activa na Associação de Mulheres Mastectomizadas – Ame & Viva a Vida.
Fazia mamografias regularmente?
Confesso que não. Sempre fui a consultas, mas desde que o meu filho nasceu não tive o cuidado de fazer mamografias. Aparentemente não tinha queixas, mas quando deixei de amamentar comecei a emagrecer. Pensei que o meu corpo estava a voltar ao normal, mas pareceu-me que as minhas mamas não tinham emagrecido de uma forma uniforme.
Tinha uma covinha por baixo do mamilo da auréola mamária esquerda. Nessa altura, fui ao ginecologista, por rotina, e pedi para fazer uma mamografia. Quando fui fazê-la, comecei a perceber que algo de errado se passava. Saía da sala da mamografia, vinha para a ecografia, voltava para a mamografia e de novo para a ecografia. Neste impasse, pela porta entreaberta, vi uma ecografia. Ao perceber que era a minha pensei logo: tenho um cancro!
Qual a sua primeira reacção ao saber a notícia?
Não me recordo exactamente o que senti. Tenho noção de ter entrado no consultório, ver a médica e pedir-lhe: doutora, diga-me a verdade porque eu já sei o que se passa. Nesse momento uma lágrima atraiçoou-me. Respondeu-me que ainda não podia garantir nada porque teria de efectuar mais exames. O que eu queria era fugir dali…
Saí da clínica a correr em direcção ao meu carro, entrei, tombei a cabeça sobre o volante e chorei sem parar. Já em casa, falei com a minha filha e contei ao meu marido. Não acreditou. Julgou que eu estava a imaginar… Quando o exame chegou, abri-o. Alguns termos conhecia. Outros não. Mas foi o suficiente para perceber.

