O santo remédio das águas termais
O hospital termal mais antigo do mundo deve a sua origem à rainha D. Leonor que se apercebeu das capacidades curativas das águas quentes que nasciam nas Caldas da Rainha. Ordenou a fundação do hospital e esteve durante algum tempo à frente da sua gestão, sem nunca se excluir dos banhos privativos na piscina que hoje tem o seu nome e que pode ser visitada no Hospital Termal Rainha D. Leonor.
Reza a história que a rainha D. Leonor, esposa de D. João II, seguia em viagem quando se apercebeu da existência de várias pessoas que se banhavam em poças de água quente e que afirmavam serem águas milagrosas. Diz-se também que a própria rainha se terá banhado nessas águas e curado, assim, uma ferida que tinha no peito.
Este acontecimento levou a que a rainha reconhecesse as propriedades terapêuticas das águas, tendo decidido, posteriormente, fundar o Hospital Termal, à volta do qual surgiram as primeiras casas e os primeiros habitantes das Caldas da Rainha.
«É a partir da construção do Hospital Termal que nasce a vila e mais tarde a cidade e o concelho», conta o Dr. Vasco Trancoso, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar das Caldas da Rainha, desde Março de 1999.
Com a fundação do Hospital Termal, D. Leonor instituiu o chamado «Compromisso da rainha», um documento que foi considerado como o primeiro regulamento hospitalar do País, publicado em 1512, que, de entre os vários itens de funcionamento do hospital, refere que devem ser privilegiados os doentes com menos recursos económicos e assim tem sido ao longo dos séculos.
O Hospital Termal Rainha D. Leonor, fundado no final do século XV, é considerado por muitos autores o hospital termal mais antigo do mundo.
O Hospital conhece mais duas fases, uma no século XVIII com D. João V que ordena a sua reedificação e já no final do século XIX é Rodrigo Berquó o responsável por nova remodelação.
Situado nas Caldas da Rainha, o Hospital integra ainda o parque Dom Carlos I e a mata rainha D. Leonor, onde passa, no seu subsolo, o aquífero termal.
Todo este património, e mais algumas igrejas, nomeadamente a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, (classificado como Monumento Nacional) que integra o Hospital Termal, acaba por se juntar, em 1971, ao Hospital Distrital, formando o primeiro centro hospitalar do País, designado desde então por Centro Hospitalar das Caldas da Rainha.
Esta instituição é singular no panorama da Saúde em Portugal, com o acréscimo de ser também a única estância termal do Estado.
Reaberto desde Agosto de 2000, o Hospital Termal Rainha D. Leonor encontra-se a funcionar a 50%, sendo que os projectos para os outros 50% já estão aprovados mas tem faltado o investimento para regularizar a situação.
As capacidades curativas das águas
Redução de dores e até de medicamentos e melhoria de qualidade de vida são os resultados destas águas que se consideravam antes milagrosas, mas que se sabe hoje que realmente têm características positivas para o tratamento e prevenção de determinadas doenças. A comprovar, o Dr. José Franco, director clínico, refere que «há doentes que chegam de canadianas e quando terminam os tratamentos já vão sem as canadianas. Por outro lado, os doentes sentem-se bem porque voltam sem recomendação médica».
Por outro lado, hoje em dia já se assiste também ao aparecimento de investigação médica, do ponto de vista científico credível, sobre as águas termais.
Vasco Trancoso explica que «há estudos e ensaios controlados com todos os parâmetros que levam a que sejam aceites pela comunidade científica como válidos e apontam para o grande interesse das águas com enxofre».
Exemplos deste cenário são estudos que sugerem o papel do enxofre no combate ao envelhecimento das articulações. Comprova-se que, após a absorção do enxofre pela pele, este deposita-se nas cartilagens articulares e evita a atrofia dessas cartilagens, traduzindo-se num mecanismo que retarda o envelhecimento articular.
Também há estudos que indicam o desaparecimento de certas células responsáveis pelas alergias na mucosa nasal, em caso de rinites alérgicas e sinusites, após a exposição às inalações com água mineral com enxofre.
«Passamos de um tempo antigo em que se explicavam algumas melhoras de problemas de saúde nas pessoas através do campo empírico para serem, hoje, certificadas através de ensaios médicos», salienta Vasco Trancoso.
Em todo o caso, José Franco alerta que é aconselhável repetir as termas de seis em seis meses porque o enxofre, quando entra na circulação do sangue e se dirige para as articulações, ao fim de seis meses é expulso através das fezes e da urina, sendo necessário fazer um novo «armazenamento».
Sobre a duração dos tratamentos, o director clínico relembra que os romanos definiram um período de 21 dias, que mais tarde entrou na gíria das termas. O que é certo é que a entrada do enxofre pela pele demora cerca de 21 dias, mas na terceira e quarta semana atinge uma estagnação. Deste modo, hoje em dia, fazem-se tratamentos durante duas a três semanas.

