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Pontes imaginárias

26 Outubro, 2009 0

É como pontes entre o conhecido e o desconhecido que funcionam aqueles objectos que as crianças nunca largam – o peluche ou a fralda de pano, que arrastam consigo até quase se desfazer e de que recusam separar-se.

Todos sabemos como as crianças se apegam a determinados objectos – a uma chucha, a uma fralda de pano ou a um boneco de peluche.

E também sabemos como protestam quando são separadas desses objectos de estimação. É frequente a imagem de uma criança que arrasta consigo uma fralda de pano, já a desfazer-se e em precaríssimas condições de higiene, mas que é agarrada como o mais precioso dos bens.

Tal como é frequente a imagem de um protesto inconsolável quando alguém lhe tenta retirar a fralda. E nem é preciso que haja intenção – basta que a fralda fique esquecida no momento de sair de casa para que o choro se desate e só pare quando a fralda é devolvida…

É comum que seja uma fralda de pano, mas pode ser qualquer outro objecto, desde que seja suave. Para a criança, esse objecto é uma reminiscência do calor que emana do peito e dos braços maternos: ao agarrar a fralda junto a si é como se se aconchegasse no corpo da mãe. E apega-se assim à fralda ou ao peluche precisamente para compensar a ausência da mãe: é como se a sentisse próxima apesar da separação.

É entre os quatro e os seis meses que, normalmente, se inicia este comportamento: e assim acontece porque é nesta idade que a criança se começa a movimentar no mundo externo, sem se separar completamente do seu mundo interno. Daí que estes objectos sejam chamados de transição – funcionam como pontes entre os dois mundos em que a criança se situa.

Calcula-se que mais de metade das crianças tenha uma fraldinha de estimação (ou equiparado), cujo cheiro reconhece e de que recusa separar-se, mesmo quando se está a desfazer e quando deixa muito a desejar em termos de higiene: oferecer-lhe uma nova ou lavada não resulta. A criança desenvolve uma ansiedade extrema: é que a fralda proporciona segurança, funcionando ao mesmo tempo como um substituto materno e como um suporte na conquista de autonomia.

É o conforto que a criança retira desse objecto que lhe permite aceitar a ausência da mãe e transitar para o ambiente externo, de uma creche por exemplo.

Seja a fralda ou outro objecto qualquer, a verdade é que constitui uma ferramenta que permite à criança afastar-se das suas figuras de referência e desenvolver uma existência mais independente. Porque pode ser levado para qualquer lado, proporciona conforto imediato sempre que a ansiedade surge. Logo, a criança fica menos dependente do cuidador.

Os objectos de transição desempenham ainda um papel fundamental na identificação da criança consigo própria e com os outros: com a fralda ou o peluche, ela aprende a representar o “outro”, por oposição ao “eu”, aprende que aquele objecto é distinto, separado, de si própria, o que é mais um passo na construção da sua autonomia.

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