A arte de bem envelhecer
“As alterações que decorrem do envelhecimento têm causas e consequências fisiológicas, psicológicas e sociais e surgem, progressivamente, desde cedo até à idade adulta, atingindo o estado de maturação plena. Considera-se que o envelhecimento é ‘bem sucedido’ quando as perdas que ocorrem são mínimas ou inexistentes, tendo os factores extrínsecos (têm) um papel neutro ou positivo.”
Apesar de o objectivo do comum dos mortais ser a vida eterna, ainda estamos longe de conquistar tamanho feito. Segundo alguns estudos, a longevidade na espécie humana já atingiu o patamar dos 120 anos. E, até à data, ainda não sofreu qualquer alteração. “No entanto, o número de pessoas que atinge idades muito avançadas é crescente, ou seja, a longevidade média aumentou consideravelmente.”
Em Portugal, a percentagem de indivíduos com 65 ou mais anos era de 8% em 1960 e passou para 17% em 2007. “Para isso contribuíram a menor mortalidade infantil, a possibilidade de cura das doenças agudas de causa infecciosa, a promoção da saúde e prevenção de doença, a melhor capacidade diagnóstica e terapêutica, ou seja, os evidentes progressos da medicina e dos cuidados de saúde. Também a nível social as condições de vida melhoraram muito, nomeadamente as condições sanitárias, a higiene individual, a alimentação.”
Um passo em frente
No final do século XX, a Organização Mundial de Saúde (OMS) substituiu o conceito de “envelhecimento saudável” pelo de “envelhecimento activo”. “Sem dúvida que é possível manter muitas das características daquilo que se chama envelhecimento saudável, se adoptarmos uma atitude positiva e não cedermos às limitações decorrentes de algumas incapacidades geradas pela presença dessas incapacidades”, esclarece o Dr. Horácio Firmino, coordenador da consulta de Gerontopsiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra.
“No nosso pais ouve-se com frequência o desejo de chegar à reforma e mesmo da antecipar, podemos dizer que isso é o maior erro que podemos adoptar. Devemos mudar esta mentalidade e olhar para o trabalho como algo que nos gratifica e defende das incapacidades. Parar significa morrer, trata-se de um provérbio popular que encerra muito de ciência. A manutenção de uma actividade física regular, para além de obrigar o cérebro a funcionar, resolve as muitas das situações do quotidiano que constituem a base de um envelhecimento activo.”
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Algumas teorias tentaram explicar que uma melhor adaptação ao envelhecimento, sempre com um sorriso nos lábios, pode fazer a diferença entre a saúde e a doença. “Tem-se demonstrado que as pessoas com um melhor auto-conceito, sobretudo na sua componente de auto-eficácia, possuem uma espécie de efeito amortecedor no declínio funcional face à capacidade física diminuída. Daí que os idosos devam continuar a realizar as actividades básicas quando a sua capacidade está em risco de diminuir.”
Olhar para o tempo, segundo a óptica da ampulheta, não deve ser uma filosofia do idoso. Para Horácio Firmino, o segredo do envelhecimento activo está em saborear novas experiências e viver cada dia como se fosse o único. “Ler, escrever, desenhar, pintar, ver cinema, teatro, ouvir música, dançar, fazer exercício físico regular (e não estamos a falar de fazer desporto), conviver. No fundo, são tudo estratégias para manter uma vida participativa que exercite o corpo e o cérebro, fugindo de vida sedentária.”

