Vacina antipneumocócica conjugada » Prevenção ameaçada por custo elevado e falta de comparticipação de vacina - Médicos de Portugal

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Vacina antipneumocócica conjugada » Prevenção ameaçada por custo elevado e falta de comparticipação de vacina

1 Novembro, 2004 0

«Desejávamos que existisse uma vacina ideal que cobrisse todos os micróbios possíveis, administrada numa única dose, oral ou injectável, sem efeitos secundá­rios, nem reacções adversas, nem riscos e totalmente eficaz.» Estas são as palavras do Prof. Mário Cordeiro, pediatra e professor de Pediatria e Saúde Pública da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, habituado a inúmeras crianças que não vêem com bons olhos «aquelas» picadas dolorosas, mas fundamentais.

De facto, segundo o pediatra, «o grande senão da vacinação é o número de doses, a repetição após algum tempo e as idas ao Centro de Saúde, o que, na vida actual, causa um certo transtorno».

Todavia, a vacinação, que varia consoante o país por questões de política de saúde, é a forma de medicina preventiva mais eficaz e com um custo de benefício reduzido se se considerar eventuais acidentes à falta da dita prevenção.

«Centenas de milhares de portugueses estão vivos e de boa saúde graças ao Plano Nacional de Vacinação, que funciona no nosso País desde 1965», refere Mário Cordeiro, prosseguindo:

«Tendo em conta que a evolução da ciência e a fabricação de vacinas acompanham os avanços da microbiologia, o Plano Nacional de Vacinação tem, muitas vezes, que ser alterado. Além disso, o estudo da população e a análise do próprio programa também contribuem para as mudanças, sugerindo novos esquemas, a entrada de novas vacinas e a saída de outras. Por exemplo, a vacina contra a varíola deixou de fazer parte do programa, pois a doença já está erradicada.»

Contra a meningite

Se algumas vacinas sofreram modificações, passando de orais a injectáveis, ou vice-versa, e se algumas vacinas foram abolidas do programa de vacinação, outras há mais recentes que são introduzidas segundo três componentes: clínica, saúde pública e económico-política.

Infelizmente, nem todas as novas vacinas são comparticipadas e, por esse motivo, não são incluídas no Plano Nacional de Vacinação. É o caso da vacina antipneu­mocócica conjugada que, entre outras doenças, previne a meningite.

«Os pneumococos são bactérias tradicionalmente responsáveis por pneumonias, mas nos indivíduos mais vulneráveis (idosos e crianças) podem causar meningites ou septicemias, isto é, infecções do sangue, graves, com alto grau de mortalidade e que podem deixar sequelas, para além de causarem outras doenças frequentes, como as otites», explica Mário Cordeiro.

«Já existia uma outra vacina para 23 dos subtipos de pneumococo (há 80 tipos)», continua, «mas esse tipo de vacina não tem qualquer eficácia nas crianças com menos de 2-3 anos, nem imunidade duradoura. Por essa razão, pretendeu-se encontrar outra vacina que pudesse ser útil nesse grupo etário, que é exactamente o mais exposto à meningite e à septicemia pneumocócica».

Ainda de acordo com o pediatra, «foi por esse motivo que a indústria farmacêutica desenvolveu a vacina antipneumocócica conjugada. Também chamada de heptavalente, por ser constituída por sete dos principais pneumococos, e que, segundo se crê, cobre de 70% dos pneumococos causadores de doença no nosso País. Tem, ainda, a vantagem de induzir memória imunológica, isto é, após a primeira fase da vacinação, presume-se que durante toda a vida a pessoa ficará resis­tente. Além disso, o pneumococo é um micróbio que pode viver na faringe de pessoas, sem dar sintomas, pelo que estas não sabem que são portadoras, podendo passar o micróbio a ou­tras e mais outras. Esta vacina, ao contrário da anterior, também tem a capacidade de o eliminar nos portadores».

Apesar de ser comercializada desde 2001, começou a ser alvo de investigação nos anos 70.

No entender de Mário Cordeiro, todas estas décadas de investigação justificam o elevado preço – cada dose ronda os 70 euros e, dependendo da idade da criança, podem ser administradas entre duas a quatro doses.

«Actualmente, quando falamos de tecnologias de ponta, numa área como a Microbiologia, não é possível conjugar quali­dade com baixos preços. Mas, obviamente, é complicado para certas famílias suportar os custos da vacina anti-pneumocócica conjugada, uma vez que não é comparticipada», comenta o especialista, salientando o aumento das desigualdades entre os mais e os menos afortunados, no que respeita à prevenção essencial dos mais novos.

«Na saúde não se pode criar desigualdades, pelo contrário, uma das prioridades numa boa Saúde Pública é reduzir ou mesmo acabar com as desigualdades e ini­quidades. O mínimo tem de ser assegurado para todos. O ideal seria ser gratuita, mas trata-se de uma vacina que não faz parte do Plano Nacional de Vacinação, e essa é uma decisão clínica mas também política e económica. Agora, indepen­dentemente disso, cabe aos médicos de família e pedia­tras dar uma informação credível, científica, rigorosa e honesta aos pais que, por sua vez, optarão por comprar ou não a vacina», refere Mário Cordeiro, concluindo com duas questões pertinentes:

«Qual é o grau de responsabilidade de um médico que não informa os pais da existência de uma vacina contra a menin­gite e, mais tarde, a criança tem uma doença pneumocócica? Como viverão os pais que tiveram acesso à informação e decidiram não comprar a vacina? São problemas que se nos põem todos os dias, e aos quais, infelizmente, os decisores estão frequentemente alheios.»

10 a 15% das vítimas morre

Uma meningite é uma inflamação originada pela criação de pus ao nível das meninges, o que significa que rodeia os neurónios e o cérebro.

«Se tivermos uma borbulha com pus na perna, depois de curada, fica sempre uma pequena marca. Imagine-se ao nível do cérebro o que não poderão causar as cicatrizes que permanecem após a meningite», elucida Mário Cordeiro, referindo algumas consequências da meningite:

«A pior é a morte: 10 a 15% das vítimas morrem; pode causar sequelas, tais como problemas neurológicos graves, convulsões ou baixa de visão; e, segundo estudos de longo prazo que foram realizados, pode ainda provocar sequelas que se manifestam mais a longo prazo, na escola ou no emprego a nível intelectual.»

Sofia Filipe

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