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Sexualidade, Cultura e Internet » Disfunções sexuais podem ter origem em aspectos «não sexuais»

21 Janeiro, 2007 0

«No fundo, muito da actual terapia sexual é, na sua natureza, “não sexual” e passa por aspectos e mudanças socioculturais». São palavras do Dr. João Amílcar Teixeira, psiquiatra, referindo-se aos aspectos socioculturais das disfunções sexuais.

«É óbvio que não nos podemos esquecer de que há determinantes biológicos em muitas das disfunções sexuais», afirma o especialista, avançando:

«Mas também não nos podemos esquecer de que a realidade quotidiana, com homens e mulheres cronicamente extenuados e fatigados, os actuais estilos de vida, a falta de comunicação e de carinho e de erotização desse mesmo quotidiano, as lutas de poder dentro do casal, e até as incompatibilidades entre o modelo cultural do casamento e as expectativas de quem casa, têm influência, directa ou indirecta, nas disfunções sexuais.»

De acordo com o psiquiatra, «não haverá alternativa em Sexologia senão avaliar-se, separadamente, a resposta sexual, mas igualmente estes aspectos “não sexuais”».

A prática clínica e a terapia sexual não podem, pois, ser indiferentes a todos esses aspectos. Não podem passar, sobretudo, por cima das diferenças das pessoas e dos casais. Admite-se que nos dias de hoje assistimos a uma «maravilhosa variabilidade individual e dos casais».

Homens e mulheres, bem como as suas sexualidades, são obviamente diferentes. Tudo passará por aqui. Parece que para a grande maioria das mulheres afecto e comunicação emocional, por exemplo, são mais importantes que o orgasmo numa relação sexual.

«A mulher terá ainda necessidade de assumir mais claramente o seu corpo e o seu desejo sexual e o homem as suas emoções e necessidades afectivas. Isto levar-nos-á, se calhar, a uma maior igualdade real entre homens e mulheres, respeitando as suas diferenças. A única forma, talvez, de se irem conseguindo relações cada vez mais satisfatórias a todos os níveis», afirma o nosso interlocutor.

Por detrás de todos estes aspectos estão mitos e falsas crenças que têm a ver com toda a tradição judaico-cristã e com séculos de erros e falsa informação. João Amílcar Teixeira fala-nos sobre os mitos em relação à mulher, ao homem e à sexualidade em geral, que acabam por reflectir o ainda dominante «duplo padrão moral sexual».

Eis alguns exemplos no que toca à mulher:

«A mulher que toma a iniciativa é suspeita ou imoral; não deve expressar os seus sentimentos; uma mulher de verdade tem relações sexuais completas; o prazer fora do coito é “mau”; sexo e prazer é algo que não é próprio delas, mas sim dos homens; tudo o que não tenha a ver com reprodução e maternidade será pouco recomendável ou duvidoso.»

O «verdadeiro» orgasmo
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Contraditoriamente, mas reflectindo «novas ideologias» e gerando ou sendo indicador da actual confusão de valores, sobretudo na sexualidade feminina, é um outro tipo de estereótipo – o do «verdadeiro» orgasmo. Neste «tocam sinos, o céu escurece e a terra treme» como que a obedecer a um estereótipo algo hollywoodesco, esquecendo-se de facto a importância da qualidade subjectiva que não se pesa ou mede», exemplifica, com humor, o especialista.

Relativamente ao homem também se encontram mitos, obviamente de sinal contrário, reflectindo o «papel activo» que aquele «deve» ter: «O homem está sempre pronto e deseja sempre ter relações sexuais; homem que não tem erecção em situações assinaladas socialmente como sexuais é, pelo menos, homem duvidoso; tem maior capacidade sexual que a mulher; o sexo deve acontecer por iniciativa e sob comando do homem.»

«Todos os contactos físicos devem levar ao coito, todos os coitos devem levar ao orgasmo; relação sexual é igual a coito, o resto são meros substitutos ou aberrações», são outros exemplos do quanto o modelo da sexualidade masculina é quase exclusivamente centrado na genitalidade.

Em resumo, João Amílcar Teixeira afirma: «A nossa própria prática sexológica não consegue ser indiferente às mudanças socioculturais em geral, sendo influenciada por essas mudanças, mas influenciando-as também.»

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