«O preço da saúde» versus «a saúde a que preço» - Médicos de Portugal

A carregar...

«O preço da saúde» versus «a saúde a que preço»

1 Dezembro, 2004 0

Que a saúde tem um preço não restam dúvidas. Um preço individual e colectivo que todos pagamos de uma forma indirecta ou directa.

Estar a pagar e perceber que a cada momento a intenção do Governo é introduzir medidas que conduzem à desu­manização dos cuidados é como levar um «murro no estômago». Para nós, enfermeiros, são «dois murros», porque, ao mesmo tempo que reduzem as condições que nos permitiriam prestar Cuidados de Enfermagem com a qualidade que gostaríamos, ainda nos confrontamos com a tentativa de desvalorização e desqualificação do trabalho dos enfermeiros.

O Ministério da Saúde, pródigo na criatividade, está a propor:

• Utilização de enfermeiros recém-formados ou reformados para determinadas tarefas, por exemplo, acompanhamento de doentes ao exterior,

• Polivalência de enfermeiros entre serviços similares,

• Redução do número de técnicos nos Serviços,

• Suspensão do vencimento do exercício perdido a todos os funcionários que tenham faltado por doença/
/atestado e não tenha tido internamento hospitalar,

• Criação de equipas inter-hospitalares,

• Determinação de rácios de forma a reduzir equipas,

• E como se não fosse suficiente, agora até quer substituir enfermeiros por trabalhadores não qualificados.

Fica claro que o Governo, na sua ânsia de «diminuir os desperdícios», tem apostado em introduzir medidas que até podem ter este resultado a curto prazo mas, a médio prazo, serão os utentes e os doentes, mais do que qualquer outros, a sofrer as consequências:

• Diminuição da qualidade dos cuidados e da segu­rança nos actos praticados,

• Aumento da possibilidade de erros,

• Maior possibilidade de reinternamentos,

• Maior grau de insegurança na relação que se pretende seja de ajuda,

• Desqualificar e desvalorizar tantos os enfermeiros experientes quanto os que acabam de entrar na profissão. É possível imaginar um enfermeiro recém-cursado a assumir a responsabilidade da transferência de um doente, numa ambulância?

Por todas estas razões, afirmamos que é falsa e prejudicial para a saúde pública a política que o Governo quer implementar.

No documento emanado pelo Grupo de Missão – abor­dagem metodológica proposta para o programa de melho­ria dos hospitais SPA –, a intenção do Governo não é racionalizar gastos, evitar desperdí­cios e tornar mais eficaz e eficiente o sistema. A única e quase exclusiva preocupação é arranjar formas de tornar mais barato o sistema, ainda que seja apenas através do não pagamento de horas extraordinárias (como se a concretização das mesmas estivessem depen­dentes da vontade dos profissionais, no geral, e dos enfermeiros, em particular). Mais, a dado momento no documento orgulham-se de já ter diminuído em 60% as horas extras nos hospitais SA.

Nós sabemos como: enfermeiros com 40 horas de trabalho semanal, não permissão para frequentarem cursos de formação contínua (actualização de conhecimentos), impossibilidade do gozo de outros direitos, alterações dos horários quase diariamente em função das necessidades, ausências não colmatadas com o consequente aumento dos ritmos de trabalho dos enfermeiros das equipas.

Estas imposições de natureza administrativa e de gestão resultam num acréscimo de conflito, de desmotivação, de descontentamento e de cansaço que tem consequências… aos enfermeiros exige-se agora, não só, que lutem pela vida dos doentes, mas também que lutem contra as imposições dos «barões» que, atrás de uma secretária, só conseguem olhar para os números.

O Governo parece esquecer que todos pagamos um preço colectivo para garantir possibilidades de atendimento de qualidade a TODOS, INDISTINTAMENTE.

Paralelamente, a nossa consciência do preço que pagamos, individualmente, carece de reflexão. A nossa pouca disponibilidade para promover a nossa saúde e desta forma prevenir as situações ou episódios de doença é uma realidade. Referimo-nos como é evidente aos nossos poucos hábitos de ter hábitos de vida saudável, de pensarmos que a «máquina» mais cedo ou mais tarde acusa o «cansaço». Infelizmente, a constatação que fazemos é que este «cansaço» teima em começar a aparecer mais cedo do que tarde.

Evidentemente que estas afirmações valem por ser verdadeiras, mas não podem deixar de ser contextualizadas na situação política/social e económica do país em que vivemos. Em concreto, não vale a pena constatar que temos hoje mais obesos e em idades mais jovens, o que é preocupante, se não associarmos o apelo ao consumo da comida rápida, cheia de gordura e mais barata com que os nossos jovens estão confrontados.

A outra forma de pagamento é o dinheiro que desembolsamos, apesar da contribuição, cada vez que recorremos a uma instituição de saúde e que pode ser através de quantias simbólicas (taxas moderadoras) ou o pagamento integral, no caso do sector privado.

Independentemente do que quer que seja, a verdade é que o aumento dos custos da saúde está directamente relacionado com um aumento das necessidades em cuidados de saúde das populações, por um lado e, por outro, ao aumento tecnológico das condições em que se prestam esses cuidados de saúde.

Ora se assim é, também os gastos com os técnicos que prestam esses cuidados de saúde têm que aumentar ou porque se admite mais recursos, ou porque os que existem têm que se desdobrar para dar resposta às necessidades dos utentes/doentes/clientes.

Por todas estas razões exige-se que o Governo ponha termo ao seu discurso insidioso que os técnicos de saúde, nomeadamente os enfermeiros, são uns verdadeiros absorvedores de dinheiro porque fazem muitas horas extraordinárias.

Por fim, uma questão: com tantas medidas para tornar mais barato o sistema então qual a razão para aumentar as taxas moderadoras, agora em função do IRS de cada um? Cá nos vai parecendo que ficar mais barato é só mesmo para o Governo! De igual forma nos parece que para quem tanto apregoa o princípio do utilizador-pagador, para quando o Governo vai assumir que nos está a utilizar a todos?

Enf.ª Guadalupe Simões
Vice-coordenadora do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses

Páginas: 1 2

ÁREA RESERVADA

|

Destina-se aos profissionais de saúde

Informações de Saúde

Siga-nos

Copyright 2017 Médicos de Portugal por digital connection. Todos os direitos reservados.