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Associação «Casa de Betânia» – Integrar socialmente a pessoa com deficiência intelectual

1 Setembro, 2004 0

Por fora é uma casa como as outras. Por dentro também. É essa a grande particularidade desta associação particular de solidariedade social: funciona tal e qual como outra família qualquer.

O grande responsável pelo nascimento da «Casa de Betânia», em 1992, foi o Manel. Hoje, aos 51 anos, é o residente mais velho da Casa. A mais nova é a Fátima, com 17 anos, neste momento a completar o 6.º ano. Vivem com eles mais oito amigos, todos com uma característica em comum: são portadores de deficiência intelectual ligeira a moderada.

Nesta casa residem, ainda, as duas amigas, fundadoras do projecto, a professora Maria João Neves (já aposentada) e a médica de família Isabel Pinto, além de uma voluntária polaca, a Marta Putkowska, que veio apenas por seis meses e acabou por se render e ficar sem pensar em data de regresso.

«A “Casa de Betânia” é uma instituição particular de solidariedade social que nasceu há cerca de 12 anos com o grande objectivo de integrar a pessoa portadora de deficiência intelectual ligeira e moderada. Integrá-la numa família, que somos nós aqui, integrá-la na sociedade, participando em diversas actividades do meio envolvente, e integrá-la no mercado de trabalho, através de formação profissional», explica Maria João Neves, uma Irmã Doroteia que, para proporcionar qualidade de vida ao seu irmão, Manel, acabou por fundar uma instituição ímpar em Portugal.

Quando a mãe de ambos morreu, em 1981, Maria João Neves, na altura directora do Colégio Santa Doroteia, em Lisboa, foi obrigada a encontrar uma alternativa. Nada do que viu lhe agradou e, por isso, inspirada na Arca de Jean Vanier (projecto francês) e com a ajuda da sua colega Isabel Pinto, professora de Saúde, Religião e Moral e Música nesse colégio, arregaçou as mangas e tentou construir algo de diferente.

Maria João Neves e Isabel Pinto sonhavam com uma instituição que tratasse as pessoas portadoras de deficiência intelectual como elas merecem: com respeito, dignidade e, sobretudo, que fosse capaz de lhes dar ferramentas internas para evoluir, que potencializassem a sua autonomia.

Sociedade ainda não lhes reconhece valor

«Deficiência intelectual não é doença mental», esclarece Isabel Pinto, e, concretiza, «são pessoas com Q. I. baixo, que não desenvolvem o seu raciocínio, as suas capacidades cognitivas. Contudo, a doença mental pode estar associada, como acontece com três dos nossos residentes».

Do contacto que tinha com o Manel, no Colégio Santa Doroteia, Isabel Pinto percebeu que «as pessoas com deficiência intelectual têm muitos valores humanos que nós, ditos normais, não temos ou temos medo de os mostrar. E isso cativou–me», recorda a médica de família do Centro de Saúde de Samora Correia.

Nesta casa ninguém toma conta de ninguém: todos tomam conta uns dos outros. De manhã todos se levantam e preparam para sair para mais um dia de trabalho. O Hélder, por exemplo, trabalha na Câmara Municipal de Lisboa como varredor. Ao final da tarde começam, um a um e cada um a seu ritmo, a chegar a casa. Pouco depois vão para a escola.

Em colaboração com o Ministério da Educação, foi recrutada uma professora para acompanhar os residentes. Ana Sousa, uma jovem de 23 anos, está satisfeita com o desafio a que se propôs:

«Nunca tinha trabalhado com pessoas com deficiência, mas estou a gostar muito. Têm características especiais e o trabalho que faço com elas é muito individualizado e flexível, adequado a cada um, ao contrário do que acontece na escolaridade normal.»

Ana Sousa ensina-lhes, neste momento, a pintar e a fazer tapeçaria.

Mas como chegam os residentes à «Casa de Betânia»?

«Por caminhos diversos. O Manel está cá por ser meu irmão. O Hélder veio porque a irmã trabalhava na Segurança Social e soube do nosso projecto. O pai tinha morrido há pouco tempo e já não tinha mãe. Esta é outra característica que une estes jovens, a ausência de pai e mãe», sublinha Maria João Neves, da Congregação das Irmãs de Santa Doroteia, entidade italiana representada em Portugal.

«Somos uma congregação que se dedica a projectos de educação na comunidade, aberta ao mundo e actuando em todos os continentes», concretiza.

Contudo, faz questão de frisar:

«Nós na “Casa de Betânia” não somos um projecto religioso, somos um projecto em torno dos indivíduos com deficiência, queremos chamar a atenção para o seu valor. Porque são capazes de viver como todos os outros embora a sociedade não reconheça isso.»

«O que puxa o gatilho para a mudança, para a evolução deles, é o ambiente. Mesmo dentro da própria família eles não foram tratados como pessoas normais e com capacidades. Hoje, a escola já os integra mesmo que não tenham capacidade para avançar no percurso escolar. Mas são capazes de aprender e de ter conversas com os pares da mesma idade, se estiverem integrados no meio deles.»
Projecto cresce para «Vila de Betânia» Além desta casa em Queijas, a associação tem mais dois apartamentos, um deles em Carnaxide, onde vivem cinco jovens «que saíram daqui, pois já têm maior autonomia», explica Maria João Neves.

O outro fica muito perto da casa de Queijas. Foi arrendado para ser, a longo prazo, mais um apartamento autónomo, mas, provisoriamente, é o local onde funciona o Centro de Recursos Sociais da «Casa de Betânia». É lá que se presta apoio psicológico aos utentes e onde se faz o atendimento e encaminhamento dos vários casos que chegam até esta associação à procura de uma resposta à sua situação.

No mercado de Queijas, um projecto que nasceu da colaboração com a respectiva câmara municipal, a associação tem uma loja, «onde os residentes da casa têm mais um ponto de contacto com a sociedade, trabalhando-se, assim, ao nível da inserção social», adianta Maria João Neves.

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