Seleccionar, separar e colher componentes sanguíneos
«Venho satisfeito e vou satisfeito»
«A primeira vez que dei sangue remonta aos tempos em que estava em África, em Moçambique», conta Manuel Cipriano, enquanto aguarda que a máquina lhe retire uma unidade de plaquetas.
E continua: «Tinha 20 anos e dei directamente para um colega ferido. Quando regressei a Portugal, comecei a dar regularmente, interrompi durante um ou dois anos por opção, mas retomei a dádiva, nomeadamente em vários hospitais e desde há dois anos mais regularmente no Instituto Português do Sangue.»
Este operário fabril na área de produtos químicos, de 56 anos, leu um folheto sobre a aférese, considerou interessante e inscreveu-se. Decorreu um ano até ser chamado para engrossar a lista dos dadores.
«Disponibilizo-me a fazer uma dádiva de três em três meses. Venho satisfeito e vou satisfeito», diz Manuel Cipriano, que pensa continuar com esta forma diferente de dar sangue enquanto puder.
Um convite para a dádiva multicomponente
Jorge Manuel Viana, de 39 anos, foi dador de sangue total durante oito anos. Deixou de o ser há três para abraçar a aférese. Foi, pois, um dos primeiros dadores desta Unidade de Aférese.
«É uma forma de poder ajudar os outros sem o intuito de querer receber algo em troca», comenta este consultor comercial na área da higiene e limpeza, de Lisboa, enquanto faz uma dádiva.
Não lhe causa impressão estar cerca de 40 minutos à espera que o separador celular lhe retire um concentrado unitário de plaquetas e volte a reintroduzir os restantes componentes sanguíneos.
Aliás, opina, ser «um processo mais fácil tanto para o dador como para os técnicos de saúde, pois há um aproveitamento total da dádiva».
Quiçá muito em breve venha a juntar-se aos dadores multicomponentes, afinal, recebeu o convite.
Aférese em discussão
Foram inúmeros os temas debatidos entre os dias 18 e 20 de Novembro no Auditório Tomé Pires, situado no Parque da Saúde, em Lisboa. Isto porque o Centro Regional de Sangue de Lisboa organizou o III Simpósio Aférese. Tal como o nome indica, foi a terceira reunião científica nesta área, após as anteriores, em 1987 e 1988.
«A aférese é um campo sobejamente conhecido pelos imuno-hemoterapeutas, mas talvez pouco em outras áreas da Medicina», comenta a Dr.ª Gracinda Sousa, directora do Centro Regional de Sangue de Lisboa.
Referindo-se ao objectivo do simpósio, reforça: «Por um lado, quisemos divulgar os desenvolvimentos tecnológicos e científicos, ou seja, aquilo que hoje é possível fazer com a aférese. Por outro lado, garantir uma transversalidade na actualização dos conhecimentos entre os diferentes profissionais de saúde envolvidos e os dadores.»
«A partilha de experiências entre os vários especialistas, directa ou indirectamente ligados à aférese, é fundamental
para possibilitar uma melhor qualidade de vida aos doentes que beneficiam com o uso da técnica», acrescenta Gracinda de Sousa, salientando também o importante contributo do dador para a terapêutica transfusional.
Não deixou, ainda, de abordar a importância da aférese na terapêutica, dando um exemplo concreto:
«Nalgumas situações, um doente com uma leucemia aguda fica com uma quantidade de glóbulos brancos doentes em circulação tão grande, que pode dificultar o início da terapêutica sem que se remova aquela massa tumoral.
Nestes casos, a aférese pode ser utilizada para se fazer uma espécie de cirurgia líquida, removendo a massa tumoral que está em circulação.»
No que concerne à dádiva, Gracinda de Sousa explica que, «sem se saber o que realmente é a aférese, é impossível ter uma noção fidedigna e algumas pessoas podem ter receio.
Mas a adesão tem sido positiva, sobretudo porque, sendo já dadores, têm interiorizada a motivação de ajudar o outro a viver melhor, e aderem a esta forma diferente de dar componentes sanguíneos».
Dádivas e dadores
De acordo com os mais recentes dados fornecidos pelo CRSLisboa (IPS), nos primeiros três trimestres de 2004, neste Centro Regional, 34.883 dadores de sangue total doaram 42.442 unidades (índice de dádiva de 1.2).
As 291 dádivas de plaquetas obtidas na Unidade de Aférese do CRSLisboa foram conseguidas graças a 147 dadores (índice de dádiva de 2). Também mais de metade dos dadores disponibilizaram-se para repetir a colheita.
Sofia Filipe

