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Hiperactividade infantil manifesta-se também na idade adulta

3 Outubro, 2006 0

Quando se pensa em hiperactividade, provavelmente, ocorrem à memória imagens de crian­ças irrequietas. Porém, nem só de comportamentos irrequietos «vive» a hiperactividade, desde logo porque não afecta apenas as crianças.

Definida como uma perturbação neurobiológica do desenvolvimento, a hiperac­tividade tem uma base genética muito bem-demonstrada. Posteriormente, pode­rá ser influenciada por factores ambientais e sociais e persistir pela vida adulta.

«Preferia não usar o termo hiperactividade», afirma o Dr. Carlos Filipe, psiquiatra, director e coordenador das áreas de Pedopsiquiatria e Psiquiatria de adultos no CADIn – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil.

«Nos adultos, a hiperactividade desaparece e dá lugar a outras manifestações, sendo ela própria uma manifestação e não o núcleo central da perturbação designada perturbação de hiperactividade com défice de atenção (PHDA)», acrescenta o psiquiatra, em jeito de explicação, completando:

«Quando falamos em hiperactividade, pensamos naquela criança irrequieta que anda a correr de um lado para o outro ou que não consegue estar no mesmo sítio. Nem sempre é assim. Por exemplo, nas raparigas essa hiperactividade é menos frequente. Aquilo que está, na maioria dos casos, invariavelmente presente é o défice de atenção, ou seja, a incapacidade de estar atento, a incapacidade de estar concentrado numa tarefa.»

A outra face da hiperactividade

Estima-se que cerca de 4 a 8% das crian­ças em idade escolar apresentam critérios de diagnóstico para hiperactividade com défice de atenção. Estima-se também que em aproximadamente 50% destas crian­ças tais sintomas persistem na vida adulta. Sintomas esses suficientemente importantes para merecerem intervenção médica, caso perturbem a vida social e profissional. Porém, nem todos os adultos possuidores deste défice foram crianças hiperactivas.

Por outro lado, nos adultos afectados por esta perturbação surgem outras manifestações que, de alguma forma, substi­tuem a hiperactividade da infância.

A dificuldade em adormecer à noite é uma delas, pois a actividade intelectual acentua-se e surgem ideias sobre ideias.
A impulsividade é outra, assim como a falta de atenção e a desorganização.

«É indício que sofrem de hiperactividade com défice de atenção aqueles que constantemente agem antes de pensar, que não conseguem ouvir até ao fim o que os outros estão a dizer e que actuam de uma forma muito impulsiva nas coisas práticas do dia-a-dia», comenta Carlos Filipe, apontando outro comportamento:

«Quando fazemos a biografia destas pessoas, encontramos um “saltitar” de empregos maior do aquele que acontece, por norma, na população em geral.

O cres­cente número de empregos ocorre ou por abandono do próprio (porque há uma dificuldade muito grande de suportar a rotina e, sem pensar nas consequências ou temerem o desemprego, despedem-se), ou porque são despedidos porque têm dificuldade em efectuar tarefas que necessitem de maior cuidado em termos de horários ou espaços mais fechados.»

«Tal como sucede na carreira, a vida afectiva é idêntica», continua, «são pessoas que frequentemente têm uma vida afectiva atribulada ou com algumas relações afectivas bastante instáveis».

A juntar a tudo isto, com grande frequência, têm dificuldade em cumprir horários, organizar o seu tempo, dar prioridades e organizar no tempo e no espaço as suas actividades. Por exemplo, se começa­rem uma determinada tarefa e de repente depararem com qualquer outra tarefa que, de imediato, lhes desvia a atenção da anterior começam a executá-la.

«Os adultos com PHDA de maneira nenhuma têm um Q.I. mais baixo, são tão inteligentes como a população em geral», salienta Carlos Filipe, prosseguindo:

«Geralmente, fazem um enorme esforço para acabarem o que começaram, sendo que o abandono constante de determinadas tarefas acontece, em especial, com as que lhes são mais aborrecidas ou desagradáveis. Mas se efectuarem algo que as motiva é “ouro sobre azul”.»

Toda esta dispersão acontece no traba­lho, nos estudos, na vida social e afectiva. Contudo, se estiverem muito bem-orientadas, tudo isto pode passar, de alguma forma, despercebido.

Instabilidade, baixa auto-estima, depressão

Consoante as situações, as ocasiões e os pontos de vista, sofrer de perturbação de hiperactividade com défice de atenção pode ser mais ou menos complicado. De facto, a forte instabilidade do indivíduo tem consequências desagradáveis, principalmente para os familiares que o rodeiam.

No que diz respeito ao portador da perturbação, já não é tão linear…
«São pessoas que, com enorme frequência, têm uma baixa auto-estima e a depressão vem, muitas vezes, associada, pois, sabem que são capazes, mas, cons­tantemente, são confrontadas, quer com a sua incapacidade, quer com outras pessoas que têm sucesso e não são especialmente melhores», frisa o psiquiatra, acrescentando:

«Normalmente, ao nível profissional, funcionam melhor em actividades por conta própria, porque têm mais autonomia, conseguem gerir o seu tempo e cumprir prazos, através de esquemas extremamente curiosos que seriam, talvez, inconcebíveis trabalhando para uma entidade patronal.»

Se para uns viver com este défice de atenção é ultrapassável, para outros não acontece o mesmo. Muitos têm, inclusive, de recorrer a terapêuticas.

«A perturbação de hiperactividade com défice de atenção não tem cura, mas tem tratamento. Trata-se de uma perturbação rela­cionada com a bioquímica do cérebro (perturbação neurobiológica) e, como tal, a primeira acção é restabelecer esse desequilíbrio bioquímico através de medicação (estimulantes», refere Carlos Filipe, salientando que «a forma como a perturbação neurobiológica se apresenta é influenciada pelo meio e pela educação, entre outros factores».

Segundo o especialista, «a medicação justifica-se enquanto fizer falta e, regra geral, interrompemos a medicação para ver como é que a pessoa reage e decidimos em conjunto se ainda se justifica continuar o tratamento».

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