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Hiperactividade infantil manifesta-se também na idade adulta

3 Outubro, 2006 0

Psicoterapia, uma ajuda preciosa

O tratamento farmacológico também pode ser complementado com outras tera­pêuticas.

«No sentido de ajudar o indivíduo a reestruturar-se e a ter a capacidade de esco­lha, poderá haver a necessidade de se fazer uma psicoterapia psicopedagógica, para lhe explicar o que é a perturbação, como é que se manifesta, por que razão acontece, a actuação do fármaco e o que eventualmente sentirá como respostas quando toma, ou não, o medicamento», informa o psiquiatra.

E continua: «Poderá, ainda, ser neces­sário fazer outro tipo de intervenção, isto porque na perturbação de hiperactividade com défice de atenção em, pelo menos, dois terços dos doentes existem outras perturbações associadas, sendo as mais frequentes as perturbações do humor (depressão ou doença bipolar) e as perturbações de ansiedade, frequentemente associadas a consumos de substâncias (álcool, haxixe ou cocaína).»

Nestes casos, o tratamento é feito consoante a forma como cada uma das situa­ções interfere com a vida do doente. Ou seja, se a depressão for profunda, o médico irá tratar em primeiro lugar esta patologia.

Contudo, se se tratar de uma depressão reactiva, isto é, se o indivíduo fica depri­mido porque não consegue fazer nada, o facto de começar a conseguir – porque a hiperactividade com défice de atenção foi tratada – permite que reaja e se sinta melhor.

Como é feito o diagnóstico

A hiperactividade com défice de atenção afecta de igual modo ambos os sexos, tanto nas crianças como nos adultos. Mas, enquanto nos adultos é manifesto, nas crianças é mais evidente nos rapazes, pois são mais perturbantes e mais perturbadores que as meninas, logo ela é mais facilmente assinalada.

Na idade adulta, em que a hiperactividade dá lugar a outras manifestações, existem dois aspectos fundamentais no diagnóstico. A saber:

1 – Avaliação clínica. Nesta fase, é considerado o conjunto de sinais e sintomas que o paciente sente no momento, bem como as dificuldades que tem e como as mesmas interferem com o quotidiano.

«Se não existir interferência manifesta na vida do dia-a-dia não existe patologia, pelo que só é lícito fazer o diagnóstico quando determinada perturbação interfere de forma significativa com vários aspectos na vida de um indivíduo», alerta Carlos Filipe.

2 – História. Na segunda etapa de diagnóstico, o especialista tenta perceber se existiam comportamentos compatíveis com o défice de atenção na infância. Desta forma, procura fazer o historial fiável do doente desde a idade pré-escolar, recorrendo a familiares (pais e irmãos mais velhos) ou relatórios de professores. Historial concebido, tem de haver indicação de que nessa altura já existiam sinais e sintomas claramente sugestivos desta perturbação.

«Nos relatórios dos professores da escola são clássicos os comentários como “Conseguia fazer melhor se não tivesse tão distraído”, “Tem capacidade se quiser”, “Tem de estar mais atento nas aulas”, “Nunca faz os trabalhos de casa” ou “Não pára de falar com os colegas”», observa o psiquiatra.

Primeiro simpósio com sucesso

Pela primeira vez em Portugal, realizou–se um simpósio subordinado ao tema A Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção ao Longo da Vida. Foi organizado pelo CADIn e trouxe ao nosso País, em Setembro último, vários especialistas internacionais, que debateram aspectos relacionados com o diagnóstico, a natureza, a genética e a epidemiologia.

Dirigido a psiquiatras, pedopsiquiatras, neurologistas, neuropediatras e psicólo­gos, o 1.º Simpósio Português de PHDA no Adulto teve um grande sucesso e tudo indica que terá sucessores.

Que o diga Carlos Filipe, coordenador do evento: «Os resultados foram bastante positivos e julgo que foi dado o “pontapé de saída” para o estudo, diagnóstico e intervenção desta perturbação.»

Tudo sob controlo…

até à faculdade

Não raras vezes a vida académica resulta num ambiente propício à manifestação de comportamentos sugestivos de hiperactividade com défice de atenção.

«Muitos casos são diagnosticados na época da faculdade, quando o insucesso nos estudos se manifesta, sobretudo, entre os jovens oriundos de meios fami­liares muito bem-estruturados e organizados, com o tempo bastante ocupado e programado não por eles próprios, mas pela família», diz o Dr. Carlos Filipe, exemplificando:

«Ao chegarem à universidade, estes jo­vens, sobretudo se habitavam na província, ao se encontrarem a residir numa residência universitária, onde ninguém os acorda ou manda dormir e com aulas de frequência livre, começam a fazer o que lhes apetece. De manhã, podem ter dificuldade em acordar, porque adormeceram muito tarde e se tiverem aulas de manhã podem começar a faltar sistema­ticamente. Ora, esta dispersão cria-lhes dificuldades enormes em organizar calen­dários, determinar quais as áreas que vão estudar ou as frequências que vão guardar para segunda época.»

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