Desabafar (des)gostos para a tela - Médicos de Portugal

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Desabafar (des)gostos para a tela

1 Março, 2005 0

O TESTEMUNHO DE SÓNIA ISIDORO, 27 ANOS, VÍTIMA DE DEPRESSÃO E DE ANOREXIA

Sónia Isidoro descobriu ter dotes artísticos durante o seu processo de reabilitação física e psicológica. Após a descoberta, não parou de dar largas à sua veia de pintora.
«O Jarro», «A Ceifeira», «Mil e Uma Noites», «Erupções», «Dias Felizes», «Deusa dos Sonhos» são apenas seis títulos das 20 telas de Sónia Isidoro, pintadas nas sessões de Terapia Ocupacional, durante 2004 e 2005, e expostas para venda em Janeiro último, no átrio principal do Hospital de Nossa Senhora do Rosário (Barreiro).
A autodidacta só vendeu um quadro. Porém, não foi a venda das obras o objectivo principal da iniciativa. Além de servir para sensibilizar médicos, utentes e visitantes para a problemática da Saúde Mental, contribuiu igualmente para o ainda decorrente processo de reabilitação da autora das obras.
Todavia, antes de se tornar na protagonista da exposição, percorreu um longo e difícil caminho…

Um dia de cada vez

Sónia Isidoro nasceu em Lisboa há 27 anos, vive com os pais no Barreiro e há um ano que frequenta o Hospital de Dia do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Nossa Senhora do Rosário.

«Comecei a ser seguida por uma psicóloga porque tinha uma depressão. Mais tarde, foi ela que detectou indícios de anorexia nervosa», diz esta jovem, continuando:

«Julgava-me gorda e só as outras pessoas é que notavam a minha magreza. Havia alturas em que recuperava peso, mas rapidamente voltava a perdê-lo. Creio que tenho esta patologia desde os meus 13 ou 14 anos e nem sei porque começou.»

Sónia admite que ainda é anoréctica, mas confessa sentir-se mais equilibrada no que diz respeito à alimentação.

Quanto à auto-estima, comenta:

«Embora a exposição e a pintura tenham contribuído para levantar a auto-estima, é complicado porque continuo um pouco em baixo. Estive muito tempo em depressão, por isso tenho a noção de que não é de um dia para o outro que vou ficar com a auto-estima elevada e olhar-me ao espelho e sentir-me bem.»

E continua:

«Mas vou conseguir… tenho de viver um dia de cada vez. Se quem sofre de uma doença como esta quer tudo de uma vez e eleva o ego de repente só porque melhora, e por isso julga que já está muito bem, ao fim de algum tempo volta ao mesmo.»

Desabafar para a tela

«Sinto muita coisa, é uma espécie de fuga a certos pensamentos», menciona Sónia Isidoro, referindo-se à actividade que recentemente descobriu nas sessões de Terapia Ocupacional.

A jovem, que tem como pintora preferida Frida Kahlo, completa:

«Para certas pessoas, a pintura é uma distracção; para mim, é um refúgio de pensamentos negativos, é um modo que encontrei para me controlar, para desabafar. É também uma terapia, iniciada com a terapeuta Ana Marques, que faz parte da minha reabilitação.»

Talvez por serem desabafos é que tenha sido estranho para a Sónia ter exposto «partes de si própria» para anónimos.

«As pinturas são aquilo que sinto, que sou, são também aquilo que digo aos técnicos nas sessões terapêuticas», confessa a autora dos 20 quadros, acrescentando:

«É provável que quem viu as pinturas não fizesse a mínima ideia do significado das mesmas. Viam “coisas” desenhadas, mas eu sei o estado de espírito com que estava, o dia em que pintei determinada tela e a fase do tratamento. Expor os quadros foi como “cuspir” pedaços de mim.»

De facto, a exposição foi mais uma fase da sua reabilitação.

«Levámos a ideia da exposição em conjunto. Depois, o projecto concretizou–se, mas só na altura em que vendeu o primeiro quadro é que a Sónia teve a concretização e a consciência exacta desta iniciativa», explica a Dr.ª Ana Marques, terapeuta ocupacional do Hospital de Nossa Senhora do Rosário (Barreiro).

A este respeito, Sónia comenta:

«Quando vendi o primeiro quadro (“O Jarro”), não fiquei contente com o dinheiro, mas sim porque uma pessoa estranha gostou e deu o devido valor a algo que fiz. Além disso, pela maneira como falou, julgo que compreendeu o meu trabalho e com que objectivos e sentimentos fiz a exposição.»

Como reforça Ana Marques, «o objectivo da exposição era realmente a afirmação pessoal e o reforço da auto-estima da Sónia e posso dizer que isso foi conseguido».

Acordar para a vida

A descoberta de um dom artístico não foi o único benefício para esta utente do Hospital Nossa Senhora do Rosário.

«Quando iniciei o tratamento era um “bicho-do-mato”, não conseguia fazer nada, não via futuro e não me conseguia equilibrar como pessoa», conta Sónia Isidoro.

Acontece que, em pleno século XXI, ainda existem estigmas e preconceitos por parte da sociedade em relação a quem sofre de uma doença do foro psicológico.

«Muitas pessoas pensam que quem tem problemas mentais não tem capacidade para fazer nada. Julgam que estamos perdidos, vêem-nos como uns “coitadinhos” que têm de ser entorpecidos com comprimidos e rotulam-nos como malucos porque vamos ao psiquiatra. Na terapia ocupacional aprendemos que não é bem assim, aprendemos a fugir aos medos, a controlá-los e a combatê-los, a descobrir talentos, a planear o futuro, a comunicar, e constatamos que somos aptos para o mundo escolar ou laboral», desabafa Sónia, prosseguindo:

«Através da terapia ocupacional, descobri facetas que não conhecia, pois, há certos aspectos que só se fica a conhecer se existir alguém que consiga incentivar pela positiva e aqui encontrei muitas pessoas que me ajudaram nesse sentido. Vimos para cá como que adormecidos para a vida, depois começamos a acordar.»

Quando terminou o 12.º ano, a admiradora de Frida Kahlo tirou um curso técnico de Informática. Foi igualmente na terapia ocupacional que descobriu não ser essa a sua vocação.

Apesar de ainda não se sentir preparada para ingressar no mercado de trabalho, revelou que vai procurar emprego nas áreas com as quais mais se identifica.

«Gosto de trabalhar com crianças, de pintura, de artes. Gostava de trabalhar numa galeria de arte, por exemplo», reforça Sónia Isidoro.

Por enquanto, ainda frequenta o Hospital de Dia, essencial para a sua reabilitação, com acompanhamento do psiquiatra, enfermeiro, terapeuta ocupacional e nutricionista. Porém, está para breve o dia em que deixará de ter esta dependência diária para começar a usufruiu de apoio apenas esporadicamente.

No que diz respeito à pintura, Sónia tem a noção clara de que a vida de artista não é fácil, por isso deseja continuar a pintar, mas como actividade lúdica.

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