Saúde sénior: Este país também é para velhos
Saber envelhecer é um desafio. A medicina dá uma ajuda, proporcionando bem-estar e minimizando as doenças que vêm com a idade. No entanto, não chega e é preciso auto-motivação para aproveitar as surpresas que a vida ainda tem para lhe reservar. Como faz todos os dias Joaquim da Costa, o exemplo que hoje lhe trazemos.
“Isso é coisa de velhos.” A frase é proferida muitas vezes por Joaquim da Costa, quando lhe tentam impingir coisas alegadamente próprias para a idade. O bisavô tem 90 anos, mas ainda muita vontade de viver e, sobretudo, de experimentar. Não vira as costas à idade, mas também não se deixa limitar por ela.
E não se pense que a doença nunca lhe bateu à porta. Tocou saxofone durante anos, o que lhe valeu problemas pulmonares, que até já o empurraram para a cama do hospital. As cataratas também não lhe deram tréguas, mas foi operado e hoje vê tão bem que está mesmo a aprender inglês. Não dispensa a leitura diária de jornais nacionais, nem um livro à cabeceira da cama. Escreveu pela sua própria mão poemas para os mais novos elementos do clã, que é composto por cinco filhos, 12 netos e cinco bisnetos.
A hidroginástica deu-lhe, há alguns meses, um novo ânimo e continua com interesse, quase juvenil, por tudo o que o rodeia. No lar de Mangualde, Viseu, onde vive depois de algumas resistências em deixar a sua casa, participa em tudo o que é actividade: dos bailaricos ao teatro. Hoje, reconhece que foi uma decisão acertada. “Estar só não faz bem a ninguém”, diz. Na nova casa encontrou um amor antigo, com quem lembra tempos idos, porque “recordar também é viver”. Visita e é visitado pelos filhos ao fim-de-semana e não perde um evento familiar: casamentos, aniversários, baptizados e natais. Quando se proporciona, ainda dá um pé de dança.
Arranja motivações diárias. Agora a prioridade é recuperar o sorriso, por isso anseia pela dentadura que já foi encomendada e deve chegar em breve. Decidiu também pintar o cabelo. Para a semana logo se vê. Parado é que nem pensar!
Doentes mas medicados
Joaquim da Costa tem sabido envelhecer e tirar proveito do que a vida ainda lhe vai reservando. Mas nem sempre é assim, até porque o aumento da esperança média de vida não tem uma relação óbvia com o aumento da qualidade de vida. “Quando falamos em terceira idade hoje estamos a falar de uma faixa etária com mais de 65 anos, o que é desajustado e ridículo”, afirma Luís Rebelo, médico de família na Unidade de Saúde Familiar (USF) do Parque, em Alvalade. “Hoje em dia, por norma, quando as pessoas ultrapassam a barreira dos 60-65 anos, costumam durar muito, por isso o correcto seria ligar a terceira idade aos que têm mais de 80”, acrescenta.
As pessoas vivem mais tempo, mas dificilmente escapam aos problemas da idade. Luís Rebelo não tem dificuldades em identificar as maleitas que mais batem à porta dos mais experientes: “Artroses, alterações cognitivas, incontinência, hipertensão, diabetes e outras doenças crónicas.” “Aqui na USF temos pessoas com um estado de saúde razoável, mas são normalmente polimedicadas e com paradigmas de tratamentos que custam muito dinheiro”, revela. “As pessoas não têm consciência de que dá muito trabalho manter num estado razoável de saúde doentes num quadro destes”, explica. “É caro e dá muito que fazer, a eles e a nós.”

