Células estaminais, no cordão da vida
Após nove meses de gestação, eis que surge finalmente o momento tão aguardado: o parto. Mas se, para uns, o acto de cortar o cordão umbilical não passa de um gesto simbólico, há outros que nele vislumbram uma nova fonte de vida. As células estaminais do sangue do cordão umbilical são, desde há uns anos, alvo de investigações no mundo inteiro. E, embora ainda não sejam a receita mágica para todas as maleitas, em certos casos, já ajudaram a salvar vidas.
Em 2003, aquando do nascimento do filho mais velho, Isabel Araújo não equacionava a hipótese de recorrer às células estaminais do sangue do cordão umbilical, pelo menos num futuro próximo. “Decidi criopreservar, por julgar que, dada a evolução científica, dentro de uns anos as células estaminais poderiam vir a ser úteis no tratamento de doenças corriqueiras da sociedade actual.”
Dois anos mais tarde, em 2005, nasce Frederico Manuel, o segundo filho de Isabel Araújo. Como havia congelado as células estaminais do primeiro filho, optou novamente pela criopreservação. Nunca imaginou que as células conservadas dois anos antes viessem a ser a peça-chave no tratamento do filho recém-nascido. Acontece que, por força das circunstâncias, Frederico veio a ser o destinatário das células estaminais. Não das suas, por transportarem a sua doença genética, mas as do irmão mais velho.
“O Frederico teve um crescimento normal até ao primeiro trimestre de vida. Aos seis meses, depois de ter tido alguns problemas respiratórios, apresentava um quadro clínico complicado”, diz Isabel Araújo, farmacêutica. No hospital de Coimbra, foi então detectada uma pneumonia extensa, resultante de uma imunodeficiência adquirida. Perante o diagnóstico, Frederico foi imediatamente sujeito a um internamento hospitalar, porque, paralelamente às frequentes infecções, o corpo rejeitava os alimentos.
“Os médicos indicaram logo como solução o transplante de medula óssea. E os estudos de histocompatibilidade revelaram que o irmão mais velho poderia ser dador de Frederico”, acrescenta. Acontece que, quando se colocou a hipótese de realizar o transplante com as células estaminais do primeiro filho, Isabel Araújo não hesitou em responder afirmativamente. “Com estas células, pudemos ajudar o Frederico a ter uma cura com sucesso, sem necessidade de sujeitar o irmão mais velho e saudável a uma hospitalização.”
Em Fevereiro de 2007, Frederico, a primeira criança portuguesa a receber um transplante de células estaminais do cordão umbilical, criopreservadas num banco privado, começou uma nova vida. Após a “transfusão” com as células do irmão mais velho, no IPO do Porto, para onde foi transferido, seguiu-se, ainda, um “processo lento de recuperação”.
Agora, passado um ano e meio do “susto”, Isabel Araújo não podia estar mais segura de que fez a escolha certa. “Foi uma sorte termos criopreservado as células estaminais.” Actualmente com três anos, a criança já brinca, mantém o contacto com outras crianças e tem a qualidade de vida que não tinha antes do transplante. “O Frederico não tinha leucócitos [glóbulos brancos] e, hoje em dia, depois da intervenção, essas células já estão em número normal para uma criança com o escalão etário dele.”

