Células estaminais, no cordão da vida
“Sangue do meu sangue”
Apesar de esta ser uma história com um final feliz, nem todos os casos têm o mesmo desfecho. Isto porque, “tipicamente, há uma probabilidade de 25% de os familiares directos, dadores de células estaminais do cordão umbilical, serem compatíveis”, assegura o Prof. José Conde Belo, do IBB/CBME, Universidade do Algarve e membro da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular.
O especialista salienta, no entanto, que “este caso de sucesso mostra como as células estaminais do sangue do cordão umbilical são uma boa fonte e devem ser preservadas”. Sendo estas células “mais plásticas do que as da medula óssea”, apresentam um maior potencial de cura nas situações de doença hematopoiética (sanguínea).
O Dr. Hélder Cruz, responsável pela ECBio, uma empresa de investigação em terapias celulares, reitera esta tese. “Dizem alguns autores que as células estaminais do sangue do cordão umbilical são mais bem toleradas pelo sistema imunitário do receptor do que as células da medula óssea.” Para além disso, não obrigam a uma histocompatibilidade de 100%, como acontece com o transplante de medula. É, por esta razão, que José Belo diz ser “mais fácil encontrar um dador de células do cordão umbilical do que da medula óssea”.
Com a criopreservação, acresce ainda o facto “de serem as células a aguardar o doente e não o inverso”, diz Hélder Cruz, reportando casos em que o doente aguarda meses ou anos por um dador compatível. Mas, na opinião do responsável da ECBio, as vantagens não se ficam por aqui. “Embora consista apenas numa punção dos ossos da bacia, a colheita da medula é mais invasiva para o dador. O procedimento é mais facilitado com as células estaminais do sangue do cordão umbilical, porque estas já se encontram armazenadas e, após isolamento, prontas a serem utilizadas, bastando para isso a administração das células isoladas no receptor.”
Por serem mais “imaturas”, “as células estaminais do sangue do cordão umbilical têm um maior potencial de diferenciação em qualquer tipo de células da linhagem hematopoiética” assegura José Belo. Quer isto dizer que, embora não sejam um seguro biológico contra todas as doenças, permitem oferecer a cura em dezenas de situações patológicas do foro sanguíneo, nomeadamente as leucemias, os linfomas, as anemias, entre outras.
Guardar ou não guardar: eis a questão
Para muitos pais, esta é a pergunta que se levanta antes do nascimento do seu filho. Valerá a pena criopreservar? “Há apenas uma probabilidade de um em cada 20 mil casos de as células preservadas poderem vir a ser utilizadas pelo próprio (transplante autólogo). Porém, defende José Belo, “a criopreservação funciona como um seguro: se realmente a sua utilização for necessária, e possível, estão lá”. E, em certas situações como a do Frederico, poderão ter utilidade para familiares de primeiro grau.
Já Hélder Cruz diz que, embora para já não haja “promessas milagrosas”, a ciência está em constante descoberta das potencialidades destas células. É deste modo que se apresenta como um apologista acérrimo da criopreservação. “Sou completamente a favor da conservação de materiais biológicos enquanto se é saudável, mesmo sabendo de antemão de que estas células não concedem uma protecção total.”Para o responsável da ECBio, conservar as células estaminais do sangue do cordão umbilical “é mais uma arma terapêutica”, no caso de ocorrer um problema grave de saúde. José Belo partilha desta opinião e acrescenta, ainda, que, à semelhança de outros países europeus, este material biológico deveria ser criopreservado num banco público, servindo a generalidade da população que, eventualmente, necessite de células compatíveis para um transplante.

