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A Infertilidade

3 Abril, 2007 0

A sociedade enfatizou, desde sempre, as diferenças entre homens e mulheres. Encontrou funções e poderes para cada um, atribuindo às mulheres o maior dos poderes: a capacidade de gerar uma criança.

No entanto, nem sempre esta capacidade fazia parte dos desejos das mulheres, e nem sempre os filhos chegavam no momento certo. Ao longo dos anos a civilização assistiu a mudanças, que permitiram alterar o papel da mulher. A possibilidade de recorrer à contracepção permitiu que a mulher se tornasse mais livre, controlando a sua capacidade para ter filhos. Este acontecimento transformou a concepção num acto deliberado, planeado e desejado (Cameira, 2000).

O Desejo de Ter Um Filho

O desejo de ter filhos e a concretização dessa decisão depende, hoje em dia, de diversos factores (Cabral, 1999; Cameira, 2000). As mulheres (e os homens também) decidem ter filhos, pois consideram que a vida será mais gratificante com filhos do que sem eles. Imaginam também que ter um filho significa, de certa forma, alcançar a imortalidade. Um filho pode surgir na sequência de um projecto de vida em que já foram atingidas todas as metas a nível familiar, educacional, económica e social. Ou pode ser visto como uma solução para os problemas conjugais.

O desejo também é influenciado pelas pressões de terceiros (e.g. os pais que repetem várias vezes que adorariam ser avós) e também pela convivência com outras mulheres grávidas (e.g. colegas de trabalho), o que pode condicionar a decisão de engravidar reflectindo a necessidade de pertença ao grupo.

O filho pode ainda representar para os pais uma oportunidade para inverter as limitações que estes não conseguiram ultrapassar (e.g. seguir uma determinada profissão que os pais desejavam ter seguido, mas não conseguiram devido a determinadas circunstâncias da vida).

Todas estas dimensões mostram que o desejo de ter um filho é algo extremamente complexo, que muda de pessoa para pessoa. O desejo que move a decisão da maternidade é importante, pois influencia o modo como a mulher encara a gravidez, o aborto espontâneo ou a infertilidade.

A Infertilidade e a Família

O casal com problemas de infertilidade vê-se obrigado a fazer permanentes ajustes no seu dia-a-dia, passando a sua vida a girar em torno de um ciclo mensal de esperança-perda. O processo de diagnóstico é penoso, stressante e sempre incerto. A sensação de perda de controlo e fracasso invade o pensamento a todas as horas e em todos os dias (McDaniel, 1994).

A infertilidade entra na vida do casal transportando um enorme stress, obrigando-o a fazer mudanças profundas na sua vida, a incluir novas pessoas nas suas vidas quando procuram ajuda médica, mudanças nos padrões de intimidade sexual e mudanças nos seus planos e objectivos de vida (Burns, 1987).

A infertilidade causa um forte impacto no casamento, podendo contribuir para unir o casal ou para originar problemas relacionais. Por outro lado, sabe-se também que as mulheres que têm um relacionamento mais próximo e de maior confiança com o seu companheiro tendem a adaptar-se e ajustar-se melhor à infertilidade (McDaniel, 1994).

A chegada de netos inicia, na generalidade um momento de reequilíbrio da família. Por vezes, esta chegada é muito aguardada pelos avós, que anseiam poder cuidar de alguém como não puderam cuidar dos seus filhos, oferecendo uma educação com menos peso em termos de responsabilidades e repleta de mimos, afecto e disponibilidade.

A infertilidade é recebida pelos pais do casal como uma crise, que ameaça a perda do futuro da família. Por vezes, os pais da pessoa que recebe o diagnóstico sentem-se de certa forma culpados, pois temem ter gerado um filho “com um defeito”.

O relacionamento da pessoa infértil com os seus irmãos também pode ser afectado, pois muitas vezes os irmãos não passaram pelo mesmo sofrimento e não conseguem compreendê-lo. A chegada dos filhos dos irmãos aumenta ainda mais a desilusão do casal infértil, que se vê exposto às pressões da família para seguir o mesmo caminho, como se apenas o desejo e a vontade fossem suficientes para ter um filho (McDaniel, 1994).

Infertilidade e no Aborto Espontâneo:
Semelhanças e Diferenças no Sofrimento

Ao deparar-se com um aborto espontâneo ou com o diagnóstico de infertilidade a mulher enfrenta momentos de sofrimento, difíceis de ultrapassar. O sofrimento difere de mulher para mulher, mas existem também algumas diferenças entre o sofrimento causado pelo aborto espontâneo e o sofrimento causado por infertilidade.

Nos casos em que ocorre um aborto espontâneo a mulher tem tendência para procurar apoio na esperança de engravidar novamente, cuja gravidez será vista como uma solução para ultrapassar o seu sofrimento. Quando a mulher é infértil e já se submeteu a vários tratamentos sem resultados positivos, tem dificuldade em manter a esperança de ter um filho, pois a gravidez foi sempre um objectivo inacessível (Freda, 2003).

Apesar de existir esta ligeira diferença entre a vivência psicológica de um aborto espontâneo e de um diagnóstico de infertilidade, podemos supor que os momentos de incredulidade, ansiedade, depressão, dor e angústia são sem dúvida os mesmos.

O aborto espontâneo implica um luto penoso e sofrido, de um filho que não nasceu mas que chegou a existir dentro da mulher. Na infertilidade também existe uma perda, que exige depois a concretização de um processo de luto semelhante. Trata-se da perda associada à ideia de ser diferente das outras mulheres, por não ter capacidade de gerar um bebé.

Em termos clínicos, o sofrimento a que a mulher é exposta no momento em que descobre que é infértil é semelhante ao sofrimento que ocorre quando se perde alguém que se ama ou quando se recebe um diagnóstico de doença crónica. A infertilidade implica e exige, tal como nestes casos, um processo de luto com todas as etapas normais da vivência de perda: negação, dor, culpa, aceitação e adaptação (McDaniel, 1994).

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