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A Infertilidade

3 Abril, 2007 0

Os sintomas psicológicos que surgem são: humor deprimido, problemas de concentração, problemas de memória e ansiedade (Oddens & Cols, 1999).

A mulher infértil sente-se incompleta. O corpo é encarado como algo defeituoso e menos feminino. A confirmação da infertilidade leva a uma profunda ferida narcísica (Faria, 1990).

Quem deve procurar apoio psicoterapêutico?

A experiência psicológica da infertilidade caracteriza-se por um sofrimento acentuado, que exige ao casal uma redefinição das suas identidades como indivíduos e como parceiros. Existe uma sensação de perda dolorosa, associada à sensação de perda de controlo do próprio corpo, tristeza, decepção e sentimento de fracasso (McDaniel, 1994).

A sensação de perda e luto são factores que fazem parte da vivência normal de aceitação e adaptação ao diagnóstico de infertilidade. Esta primeira fase será elaborada no futuro e dará lugar a uma fase em que as energias se dirigem para a tentativa de reverter o problema e procurar soluções. Iniciam-se então as pesquisas, os exames e os tratamentos.

No momento em que se deparam com a situação de infertilidade, nem todos os casais reagem da mesma forma, pois nem todos estão nas mesmas condições emocionais. Existem factores que podem predizer o aparecimento de perturbações psicológicas no futuro, associadas à infertilidade. Estes factores devem merecer a atenção dos técnicos que trabalham com estes casos (Boinvin, 1999; Freda, 2003):

– Factores Pessoais: psicopatologia pré-existente, infertilidade primária (pessoa que nunca teve filhos), ser do sexo feminino, ver a maternidade como aspecto central da sua vida e ter tendência para utilizar estratégias de evitamento na resolução de problemas;

– Factores sociais: relação marital problemática, fraco apoio social (amigos, família, colegas), exposição a situações específicas que lembram continuamente a infertilidade (reuniões de família onde há sempre alguém que pergunta sobre uma possível gravidez, familiares que fazem questão de “lembrar” que querem um novo bebé na família, convívio com mulheres grávidas, etc.);

– Relacionados com o tratamento: efeitos secundários da medicação (alguns medicamentos podem causar flutuações de humor), situações que ameaçam a gravidez (aborto espontâneo, falhas em tratamentos anteriores), momentos de tomada de decisões (momentos em que é preciso decidir se vale a pena iniciar determinado tratamento ou, por outro lado, momentos em que é preciso decidir se vale a pena desistir de um tratamento), necessidade de recorrer a dadores ou à adopção.

Os casos que aparecem associados a perturbações psicológicas após o diagnóstico de infertilidade parecem ser mais graves quando existe uma combinação destes factores.

Por exemplo, nos momentos em que a mulher se vê obrigada a decidir se mantém um determinado tratamento ou se desiste são momentos complicados para qualquer mulher. No entanto, se a mulher já teve uma depressão ou se tem uma relação marital problemática, a probabilidade de aparecimento de perturbações psicopatologicas aumenta significativamente.

O Bebé: Sonho ou Realidade?

Todos os casais que desejam ter filhos, incluindo os inférteis, preparam-se para a chegada de uma criança muito tempo antes da concepção. A Psicanálise explica esta “preparação” como um ponto central para o estabelecimento posterior (depois do nascimento) de uma vinculação com o bebé. Todos nós criamos uma imagem, consciente ou não, do bebé que um dia desejamos ter. Esta imagem vai moldar-se depois ao bebé quando o conhecemos e vai ser um dos mais poderosos factores que dinamiza depois a qualidade da relação mãe-bebé (Burns, 1987).

Quando já não existem muitas esperanças de gerar um filho, o casal infértil depara-se com um sentimento de perda onde permanece uma enorme incerteza: apesar de saberem que não podem ter filhos no presente não estão absolutamente convencidos de que nunca os terão.

Existe sempre uma esperança que a situação seja reversível. Esta esperança tem momentos de força, confiança e determinação, mas também tem momentos em que se torna ténue ou mesmo inexistente. Todos estes altos e baixos são de uma violência gigantesca, que ameaçam a sanidade mental da pessoa que os vive, assim como toda a sua vida quotidiana e todos os que a rodeiam.

Mesmo quando o tratamento é bem sucedido, a maior parte das mulheres continua a considerar-se como infértil, adoptando comportamentos que as impedem de dispor de tempo para pensar no bebé: evitam imaginar como será o bebé, comprar-lhe roupas, objectos para o quarto e brinquedos (Seibel, 1997).

Sabemos que a negação da gravidez, que nestes casos ocorre como uma defesa contra o novo sofrimento em caso de perda, não é compatível com a vivência saudável da gravidez e vai colocar posteriormente problemas na relação mãe-bebé. Por esta razão, a existência de uma Consulta de Psicologia, integrada na equipa multidisciplinar de tratamento da infertilidade, faz todo o sentido. A Consulta de Psicologia poderá funcionar como um meio de prevenção de problemas futuros, oferecendo à grávida (ou futura grávida) um técnico especializado com tempo disponível para a ouvir, num espaço próprio para a realização de um aconselhamento psicológico individual, destinado à aprendizagem de técnicas de relaxamento e estratégias de coping face ao stress, e também à partilha de medos, fantasias e vitórias.

A infertilidade é uma doença silenciosa, que implica um sofrimento que muitas vezes não é compreendido como tal. Este sofrimento afecta a pessoa infértil e estende-se a toda a sua família. É importante que se criem condições que permitam um apoio psicológico não só da mulher, mas também do casal. Para os casais inférteis, a fantasia do bebé representa a perda, o sofrimento da luta e a longa espera, pois sabem que o bebé permanece um sonho e apenas um sonho. Com ajuda, esta fantasia pode passar a representar também a esperança e pode tornar-se a base de onde se tira a força para voltar a lutar e acreditar que os sonhos podem ser realizados.

Referências:

Boivin, J. & Cols (1999). Why are infertile couples not using psychological counselling? In Human Reproduction, 14, 1384-1391.

Cabral, I. (1999) Um olhar sobre o paradoxo. Monografia de fim de curso apresentada no ISPA. Burns, L. (1987). Infertility as boundary ambiguity: one theoretical perspective. In Family Process 26: 359-372
Cameira, S. (2000). Desejo de um filho. In Actas do 3º Congresso Nacional de Psicologia da Saúde. Lisboa: Ispa.

Domar, D. & Cols, 2000). Impact of group psychological interventions on pregnancy rates in infertile women. In Fertil, steril 73; 4: 805-811.

Domar, D. & Cols, 2000. The impact of group psychological interventions on distress in infertile women. In Health Psychology, 19; 6: 568-575. Freda, MC (2003). The lived experience of miscarriage after infertility. In American Journal of Maternal/Child Nursing, 28(1):16-23.

McDaniel, S. (1994). Perda na gravidez, infertilidade e tecnologia da reprodução. In Terapia Familiar Médica. Porto Alegre: Artes Médicas.
Seibel, M. (1997). Infertility: the impact of stress, the benefit of counselling In Journal of Assisted Reproduction and Genetics 14; 4:181-3

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