Fazer férias com crianças implica cuidados adicionais. Para prevenir os pequenos acidentes em viagem e no destino. E para ir e voltar em segurança.
Cá dentro ou lá fora, as férias constituem uma pausa ansiada por toda a família. Mas, para que nada perturbe essa pausa, há que preparar a viagem com toda a segurança.
Quer seja de carro ou de avião, quer o destino seja uma cidade europeia ou uma ilha tropical, há que acautelar os pequenos acidentes e incómodos próprios de uma deslocação, sobretudo quando, entre os passageiros, os há de palmo e meio.
Crianças a bordo
Para muitos portugueses, o destino de férias é nacional, quase sempre rumo à praia, tendo o automóvel como meio de transporte. São banais as viagens de automóvel, fazem parte do dia-a-dia de miúdos e graúdos, a caminho da escola e do trabalho. Mas a segurança não pode ser banalizada, muito menos quando é longa a estrada que está pela frente. Não é que os acidentes dependam da distância, mas o imponderável espreita mais vezes quando essa estrada leva horas a percorrer, no meio de tráfego intenso.
E quando as crianças vão a bordo, a segurança começa por sentá-las bem para viajar. Sabendo que uma criança que viaje à solta ou ao colo está sujeita a um risco muito elevado: com um pescoço frágil e ossos pouco firmes, fica vulnerável em caso de embate ou travagem brusca. Um risco que se contraria usando um dispositivo de segurança adequado à idade e desenvolvimento. O que, aliás, é obrigatório, com a lei a punir a sua ausência.
A cada criança o seu sistema de retenção. Até chegar a altura em que o corpo já permite uma boa utilização do cinto de segurança, momento que é encarado como uma “promoção” mas que não deve ser antecipado.
Antes de viajar, há que verificar se a cadeira ou o banco estão bem colocados e fixos e que os respectivos cintos estão ajustados.
E durante a viagem há que vigiar, pois as crianças nem sempre resistem à tentação de se soltar. Para chegarem a um brinquedo ou para espreitar melhor por entre os bancos da frente…
Em nome da segurança, há outros gestos essenciais numa viagem de carro: bloquear centralmente as portas, para que os mais pequenos não as abram; manter as janelas fechadas, para prevenir que ponham a cabeça ou um braço de fora e se magoem; colocar um protector nas janelas se o sol incidir directamente sobre eles.
Na bagagem, convém incluir alguma paciência. Para entreter os passageiros de palmo e meio e responder às perguntas típicas – “Ainda falta muito?”ou “Quando é que chegamos?” fazem parte do repertório infantil em qualquer viagem, do primeiro ao último quilómetro.
Para os distrair, é útil fazer paragens: ir à casade-banho, beber água ou fazer um lanche à sombra atenua o cansaço da viagem. O que não se deve fazer é deixar a criança sozinha no carro, mesmo que seja por pouco tempo e mesmo que ela esteja a dormir.
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Parar também é útil, numa viagem de automóvel, para combater o enjoo, que pode também acontecer quando se viaja de avião ou de barco. O que está em causa é um conflito entre os ouvidos e os olhos. O ouvido interno detecta movimento, mas os olhos – concentrados no interior do meio de transporte – não. O cérebro recebe, por isso, sinais contraditórios que resultam em sintomas como náuseas e vómitos, tonturas ou suores frios.
Para prevenir o enjoo, é conveniente fazer uma refeição ligeira antes de partir e, em caso de má disposição, ingerir um alimento suave – as bolachas de água e sal, por exemplo, são eficazes. Também é útil colocar um encosto para a cabeça, de modo a minimizar os movimentos. Além disso, deve olhar-se pela janela, fixando o olhar num ponto distante (não nos carros que passam). Se o enjoo estiver presente em todas as viagens, pode ser necessário um medicamento próprio.
Relógios desajustados
O enjoo também pode acontecer numa viagem de avião, mas é menos frequente. No ar colocam-se outros problemas, nomeadamente as dores de ouvidos causadas pela descolagem e aterragem.
Esse desconforto é sinal de que o ouvido se está a ajustar à nova pressão (subida ou descida). Mas é possível minorá-lo: chupar um rebuçado ou mastigar uma pastilha ajudam o ouvido a estabilizar.
Aos bebés pode ser oferecida a chucha ou o biberão, que estimulam a salivação e deglutição. Mas se as viagens aéreas forem frequentes e as dores de ouvido também, pode ser uma boa ideia a toma de um analgésico meia hora antes de levantar voo ou antes de iniciar a descida.
Embora se possa viajar de avião dentro de Portugal, normalmente o destino é além fronteiras. O que significa outro fuso horário. E quanto mais longe maior a diferença horária e maior a necessidade de ajustar o organismo. É o chamado jet lag: causa cansaço, perturba o estômago e desajusta os sonos, podendo dar origem a insónias.
A boa notícia é que é possível minimizar o seu impacto. Durante o voo, há que ingerir líquidos em abundância, para evitar a desidratação. Mas não álcool nem bebidas com cafeína, pois são diuréticas (aumentam a perda de fluidos).
Fazer exercício também ajuda: esticar regularmente braços e pernas, caminhar ao longo das alas é uma boa forma de combater a fadiga muscular. E antes de partir, se possível, é útil ir ajustando os horários de sono das crianças aos horários do destino: dois a três dias antes é suficiente para o organismo se ir habituando à nova rotina.
Outros ambientes, outros cuidados
Viajar implica mudar de ambiente e as crianças podem ser particularmente vulneráveis a essa mudança. Assim acontece nos chamados destinos tropicais, tão em voga: os atractivos da natureza não têm correspondência nas condições higieno-sanitárias, ainda que as unidades hoteleiras possam estar preparadas para receber os turistas.
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Há sempre riscos, nomeadamente inerentes à ingestão de água e consumo de determinados alimentos. E a diarreia é uma das afecções mais comuns entre os viajantes, sendo que nas crianças abre mais depressa caminho até à desidratação.
Prevenir é a palavra de ordem e passa por beber apenas água engarrafada e por ferver ou desinfectar a água corrente: quer seja para beber, para lavar os dentes ou para preparar a fórmula infantil ou outros alimentos.
Passa também por descascar sempre a fruta ou cozê-la, por lavar muito bem ou cozer os vegetais, por não ingerir carne mal passada, por comer apenas produtos lácteos pasteurizados e por não adquirir alimentos em vendedores ambulantes. As crianças devem ser incentivadas a lavar rigorosamente as mãos. Chuchas e brinquedos que possam ser levados à boca devem estar sempre limpos e, se necessário, ser fervidos.
Estes são destinos em que é indispensável viajar acompanhado de protector solar e de repelente de insectos. A malária está presente em muitos deles, sendo mesmo aconselhada uma consulta do viajante prévia, de modo a identificar a necessidade, ou não, de fazer profilaxia. Aí se identifica também a eventual necessidade de vacinação, em função do risco de cada país.
E porque os problemas de saúde acontecem em qualquer lugar é conveniente fazer-se acompanhar também do boletim de saúde das crianças: nele está registado o histórico clínico, essencial para orientar o diagnóstico e a terapêutica se houver necessidade de cuidados médicos durante as férias.
Bem sentadas para viajar
Para que viagem seja sinónimo de segurança as crianças têm de estar bem sentadas. O que passa por usar um dispositivo adequado à idade e desenvolvimento: • Cadeirinhas 0 -13 kg (grupo 0+) – Próprias para recémnascidos, usam-se sempre voltadas para trás, no banco da frente (se não tiver airbag frontal) ou no de trás utilizando um cinto de três pontos. O bebé viaja assim numa posição confortável e segura.
• Cadeirinhas 0 -18 kg (grupo 0+/I) – Usam-se também viradas para trás desde que o lugar não tenha airbag frontal, fixando-se com um cinto de três pontos. São adequadas para bebés com mais de seis a nove meses e até aos 18 meses.
• Cadeiras 9-36 kg ou 15-36 kg (grupos I/II/III e II/III) – São indicadas, respectivamente, a partir dos 18 a 24 meses e a partir dos três anos ou 15 quilos. São cadeiras de apoio: é o cinto de segurança do veículo que as fixa, ao mesmo tempo que protege a criança, adaptando-se ao seu corpo.
• Bancos elevatórios (grupo III) – Utilizam-se a partir dos sete, oito anos, devendo manter-se até que a criança tenha 1,5 m de altura, 12 anos ou 36 quilos. Elevam a criança, de modo a que o cinto de segurança seja colocado sem incomodar o pescoço.
• Cinto de segurança – Isolado, deve ser usado apenas em crianças com mais de metro e meio. Antes disso, a criança tem a bacia demasiado pequena e não se consegue sentar correctamente para uma boa utilização do cinto.
Há uma altura em que as crianças resistem e tentam convencer os adultos a deixá-las viajar à solta. Mas não há que ceder, porque o risco espreita a qualquer velocidade e a qualquer distância. O que há é que dar o exemplo e usar o cinto de segurança. Sempre.
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