Sexualidade na adolescência » Conhecer o rapaz «grávido»
No senso comum, existe também a ideia de que as raparigas adquirem mais cedo uma maior maturidade psicológica, o que, alegadamente, lhes daria maior capacidade para lidar com a situação. Pelo lado dos rapazes, o rótulo de infantis e imaturos pressupõe que mais facilmente abandonariam o barco.
«Se os rapazes estão, eventualmente, ainda menos preparados, isso significa apenas que precisam de mais ajuda», enfatiza Maria de Jesus Correia, continuando:
«A rapariga e o rapaz vêem-se na iminência de uma paternidade que, a maior parte das vezes, não planearam. Também para ele poderá ser um momento de perplexidade, de sobrecarga psíquica, o que exige um duplo esforço de adaptação – à adolescência e à paternidade.»
Numa fase de tão grande vulnerabilidade psicológica, o apoio emocional das famílias envolvidas reveste-se de uma importância fulcral no equilíbrio dos adolescentes.
Outro mito «é a de que as raparigas têm um grande fantasma em relação à reacção dos pais e sentem muito mais medo de dizer à família». Mas Maria de Jesus Correia revelou que «os rapazes têm tanto ou mais medo de contar aos pais do que as raparigas. Eles ficam muito aflitos, muito atrapalhados».
Para essa aflição contribui, uma vez mais, a atribuição de diferentes papéis sociais ao homem e à mulher que acarreta uma insegurança acrescida no rapaz «grávido».
Socialmente, ainda persiste a ideia de que o homem deve ser o principal sustento da família, apesar de, também no plano financeiro, estarmos a evoluir no sentido de uma partilha igualitária de responsabilidades.
Todavia, «os rapazes assustam-se muito com a possibilidade de terem de deixar os estudos para ir trabalhar, quase sempre em empregos precários. Enquanto para a rapariga isso acaba por ser socialmente mais aceite, é suposto que o rapaz arranje um emprego em que ganhe o suficiente para poder sustentar o filho. Obviamente, aos 15 e 16 anos isso vai ser muito difícil. A dependência económica da família também é mais fácil de aceitar para a rapariga do que para o rapaz», explica a mesma psicóloga.
Obrigados a entrar precocemente no mundo dos adultos, os adolescentes que esperam um filho, rapazes e raparigas, vêem a juventude ser-lhes roubada e experimentam «sentimentos de perda, associados à alteração forçada dos planos que tinham para o futuro (do qual passam a ter medo), à perda de liberdade e da condição de adolescente.
Estes sentimentos de perda são um dos grandes riscos da gravidez na adolescência, já que podem desencadear um acumular de frustrações, que impedem o desenvolvimento saudável da relação do casal adolescente, tipicamente já pouco consistente», afirma a psicóloga.
Do ponto de vista do rapaz, na sua relação com a rapariga grávida, Maria de Jesus Correia destaca «os que referem o prazer de criar algo em comum com a namorada, os que temem a rotina inerente à chegada do bebé e os que referem a dificuldade em viver a dois, quando isso não fazia parte dos seus planos».
Quanto à criança, ela corre o risco de se tornar a principal vítima dessas frustrações, tanto por parte da mãe como do pai.

