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Elisabete Jacinto, piloto de todo-o-terreno: «Eu tinha de apostar na resistência física»

1 Dezembro, 2004 0

Ser piloto de todo-o-terreno, quer de moto ou de camião, envolve muita resistência física e psicológica. Veja-se o caso de Elisabete Jacinto, que treina diariamente, sob a orientação de Fausto Ribeiro.

De início, Elisabete Jacinto julgava que o maior adversário, para uma prova como o Dakar, era o seu físico. No entanto, várias experiências e erros foram-lhe revelando que a sua aposta não devia consistir em fortalecer o físico, mas em ganhar resistência.

«Na altura, achava que precisava de força para andar de mota. O problema é que estava a fazer tudo mal. Tinha muita força realmente, mas andava 100 km e não aguentava mais. Eu tinha de, acima de tudo, apostar na resistência física», afirma a piloto.

Treinar sozinha durante muito tempo também dificultou a sua caminhada. Contudo, o encontro quase casual com Fausto Ribeiro veio alterar a situação, uma vez que, para além da preparação física ser mais adequada, também lhe deu a oportunidade de se conhecer melhor e aprender a lidar com os momentos de cansaço.

Nas palavras do treinador, «Elisabete Jacinto é uma boa aluna e esforça-se bastante. Posso dizer que no início teve alguma dificuldade em adquirir um ritmo razoável e uma consistência do exercício no dia-a-dia. Este factor foi ultrapassado com um empenho constante e determinação da parte dela».

E para uma boa prestação da nossa piloto é, desde logo, essencial haver níveis de saúde muito elevados para que a capacidade de resposta aos obstáculos que se colocam na prova seja imediata.

Corrida e ginásio

O treino é diário, normalmente das 8.30 h às 10.00 h, com um dia da semana para descansar. Durante a semana, os dias são distribuídos alternadamente, isto é, um dia no ginásio, outro dia na pista (ou em qualquer lugar onde se possa correr).

Na pista, a corrida ou a bicicleta são os exercícios seleccionados para se ga­nhar, no dia-a-dia, é a resistência física. Segundo Elisabete Jacinto, «a corrida é a base para uma boa resistência física. Põe o coração a bater, alarga os vasos sanguíneos e dá mais irrigação aos músculos».

Para Fausto Ribeiro, a corrida e a bicicleta são «dois exercícios que, bem-controlados, permitem à pessoa um prolongamento da actividade no tempo e é deste modo que se ganha resistência. No ginásio procura-se responder aos níveis de intensidade que são exigidos, realizando também exercícios de flexibilidade e de condição postural».

Uma das finalidades é, portanto, colocar a Elisabete Jacinto no máximo das condições possíveis ao nível da resistência. Outros factores como a força e uma boa flexibilidade são igualmente essenciais.

«Ter uma boa flexibilidade requer uma condição postural, porque precisa de saber como é que há-de colocar o corpo nas dife­rentes situações com que se possa deparar. Se fizer isso bem, defende-se melhor das dores que, normalmente, aparecem com estes esforços», adverte Fausto Ribeiro.

O factor psicológico

Mas participar numa prova como o Dakar não implica apenas resistência física, mas também psicológica. A motivação, a força de vontade e o espírito de sacrifício, no sentido de ter-se capacidade para sofrer, são ingredientes fundamentais para a sobrevivência na competição.

«São muitas horas a conduzir e o desgaste é imenso. A capacidade mental também entra em paralelo, ou seja, se estiver cansada não há capacidade mental», salien­ta Fausto Ribeiro.

De facto, o esforço realizado durante o Dakar é imenso, originando níveis de stress e fadiga muito elevados. E quando o físico se ressente a parte psicológica interfere e, por vezes, da pior maneira, quando surgem duas vozes na cabeça com intenções diferentes: uma que diz para continuar e outra para desistir.

Elisabete Jacinto conta-nos que «as etapas têm 700 km, ou 1000 km, por vezes, e ao final de 100 km estamos logo cansados e depois na nossa mente surgem pensamentos contraditórios. Chega um momento em que o nosso corpo não aguenta mais e temos de ser muito fortes para ultrapassar a limitação física. Por isso é que chegar ao fim da prova é como receber um troféu por tudo aquilo que fui capaz de fazer».

A determinação e a persistência são carac­terísticas fortes da piloto. A sua maneira de pensar – «O que é que eu preciso de fazer para chegar ao fim?» – revela-nos precisamente esse seu lado mais forte e positivo que procura afastar, à partida, a hipótese de não alcançar a meta. E, se não fosse assim, possivelmente também os resultados seriam outros…

Passar fome no Dakar

A ganância de fazer os quilómetros todos de seguida levava Elisabete Jacinto a estar muito tempo sem comer, permitindo que a fraqueza viesse instalar-se sem pedir autorização.
«Só quando percebi que era melhor fazer paragens e comer é que o meu rendimento e a minha resistência física aumentaram. Passei a fazer paragens de cinco minutos, para tirar o capacete e comer tudo o que trazia nos bolsos, e deste modo conseguia tirar mais partido das etapas. Estes cinco minutos eram preciosos porque depois já não me sentia tão fraca, parava de cair e já conseguia andar mais depressa. No fundo, estes intervalos rendiam mais a prova», salienta a piloto.

Não tem um plano alimentar rígido e faz a sua vida normal, mas por princípio opta por fazer algumas restrições.

«Eliminei da minha alimentação os re­frigerantes, os molhos na comida, os refogados exagerados e as batatas fritas», adverte Elisabete Jacinto.
Durante as provas a história é outra. Não há as condições ideais, como uma alimentação certa e umas horas boas de sono e descanso. Além disso, de mota, a situação complica-se até porque a ração é levada nos bolsos do casaco, o que dá para o mínimo. Umas bolachas, uns frutos secos e passas e uns pãezinhos constituem o «manjar dos deuses» que é necessário saber gerir durante uma etapa.

«No Dakar passo sempre uma fome terrível. Lembro-me que um dos grandes incentivos para andar depressa era pensar no que iria comer quando chegasse ao acampamento», conclui a piloto.

Cuidados primordiais

•Os cuidados de higiene são uma tarefa complicada, porque nem sempre há duches e casas-de-banho. Elisabete Jacinto aconselha «os toalhetes, que cons­tituem um elemento prioritário do meu estojo de higiene».

•Em relação à água só podem beber da engarrafada e mesmo assim os antidiarreicos vão sempre na caixinha de primeiros socorros que todos levam e são obrigatórios, assim como anti-inflamató­rios e comprimidos de sal.

•As vacinas da malária, da febre-amarela e do tétano são também essenciais quando chega a altura do Dakar.

O estigma de ser-se mulher
em desporto de homens

Um dia estava em frente à televisão e deu por si a ver as imagens do Paris-Dakar e a pensar que era capaz de fazer aqueles quilómetros todos. Decidiu, por isso, arregaçar as mangas e trabalhar até conseguir. Conseguiu, de facto, mas com alguns obstáculos pelo meio, nomea­damente pela questão de ser do sexo feminino.

«Percebi que as pessoas não achavam que eu era capaz de o fazer, pelo facto de ser mulher e de ser uma lingrinhas, sem físico nenhum. Isto alimentava-me o desafio e a força para mostrar às pessoas que eu era realmente capaz, apesar de ter sido sempre descredibilizada.»

Em 2000, Elisabete Jacinto consagra-se mundialmente na moda­lidade de moto, ao terminar o Paris-Dakar como a melhor piloto feminina, recebendo, por isso, a Taça das Senhoras.

No entanto, como esse Dakar teve menos quatro dias, as pessoas deram os parabéns à motard, referindo que tivera sorte, pois, se a prova tivesse os dias todos, seria difícil tê-la concluído. Se o objectivo era derrubar a motivação da piloto, mais uma vez teve o efeito contrário, pois, os comentários deram força para que se lançasse de novo na corrida, inclusive de camião, sendo uma das poucas senhoras a cometer essa proeza. E, até agora, Elisabete Jacinto já deu provas da sua determinação e do seu profissionalismo.

Pires

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