Alheamento, ausência de reciprocidade, isolamento » Autistas são estimulados para a interacção social
O que é o autismo?
O autismo é uma perturbação global do desenvolvimento infantil que se prolonga por toda a vida.
Não existem estudos epidemiológicos em Portugal, mas estima-se que cinco em cada 10 mil pessoas sejam afectadas pela forma mais profunda do autismo. Nos casos menos graves, em que a criança consegue frequentar a escola, a proporção é de um para 700 a 1000. É também sabido que em cerca de cada quatro homens há uma mulher autista.
«O autismo não é uma doença, é uma síndrome, ou seja, é um conjunto de manifestações comportamentais com implicação em várias áreas, como a comunicação, a interacção social e a imaginação. E, sendo uma síndrome, tem uma variabilidade grande, desde o ligeiro ao moderado, até ao grave», explica a Prof.ª Pilar Levy, especialista em Genética Médica e Pediatria e professora de Genética na Faculdade de Medicina de Lisboa, salientando, porém, que, «apesar de ser variável, é uma situação sempre grave»
«Antes, o diagnóstico do autismo nunca era feito antes dos 36 meses. Hoje em dia, pode ser feito numa fase muito precoce, conduzindo, por sua vez, a uma intervenção também precoce», informa Isabel Cottinelli Telmo.
Comportamentos ajudam a diagnosticar
Alheamento, dificuldade em fixar pessoas e objectos, ausência de sorriso e de reciprocidade e escasso contacto social. Estas são manifestações dos autistas, mas insuficientes para determinar se há ou não a patologia.
«A ausência ou o défice de linguagem, bem como o isolamento, são as principais características do autismo», assinala Pilar Levy, enumerando outros comportamentos:
«Normalmente, é um bebé que não brinca ou que mexe nos brinquedos de um modo anómalo. Por exemplo, agarra numa boneca e fica toda a tarde a puxar um fio do tecido, ou num carrinho e só gira as rodas. A comunicação verbal e corporal é diferente, habitualmente não aponta ou chama os pais para mostrar alguma coisa.»
Mais tarde, com a educação, vão adquirindo certas capacidades, mas continuam com atitudes menos normais. Acontece falarem deles próprios na terceira pessoa ou responderem exactamente com a pergunta que lhes é feita.
«Na escola, o isolamento é notório e determinados movimentos estereotipados, como o rodar sobre si próprio ou o balancear para a frente», menciona esta pediatra, que trabalha há 17 anos na APPDA.
No entanto, «estes comportamentos também podem ocorrer noutras situações, como, por exemplo, associado a atrasos de desenvolvimento, isoladamente, pelo que pode haver o perigo do sub ou sobrediagnóstico de autismo», avisa Pilar Levy.
Ainda relativamente a falsos diagnósticos, a mesma especialista diz que já teve doentes que foram diagnosticados erradamente como autistas, pois, apresentavam apenas alguns comportamentos característicos.
Além disso, segundo refere, «infelizmente, também alguns são diagnosticados tardiamente. No entanto, a comunidade clínica está cada vez mais alerta para estas perturbações e a capacidade de diagnóstico tem vindo a melhorar bastante».
«Houve uma significativa evolução no estudo das doenças do comportamento. O diagnóstico continua a ser, basicamente, clínico, mas também existem testes comportamentais, que nos ajudam a classificar o grau do autismo», sustenta Pilar Levy, frisando ser «importante haver um diagnóstico correcto, porque a abordagem educacional e clínica é diferente».
Doenças associadas agravam autismo
«Hoje em dia, sabe-se que o autismo é uma síndrome com bases genéticas, ou seja, é uma síndrome de hereditariedade multifactorial. Isto quer dizer que a criança com autismo herda entre três a seis genes que aumentam a tendência para o autismo», explica a professora de Genética, continuando:
«Algumas famílias poderão ter uma maior tendência, o que não quer dizer que seja uma doença hereditária, pois, os genes que as crianças herdam não são sempre patológicos, são habitualmente variantes do normal.»
A acção do ambiente também poderá ser favorável ou desfavorável ao desenvolvimento desta patologia. Além do meio que rodeia o doente, engloba-se o ambiente uterino, o facto de a mãe ter tido rubéola ou varicela durante a gravidez, a ocorrência de meningite nos primeiros meses de vida ou a existência de uma outra doença genética ou não.
«É importante uma consulta de Genética para rastrear situações que possam estar associadas ao autismo, podendo aumentar a gravidade e também serem passíveis de medicação específica, como a síndrome do X frágil, doenças metabólicas, epilepsia, entre outras», adianta a mesma professora, acrescentando:
«Esta identificação também é importante para calcular o risco de repetição desta situação em futuros filhos, um problema levantado por muitas famílias.»
O tratamento depende do estado do doente
Os resultados do tratamento variam com o comportamento do doente (hiperactivo, depressivo, agressivo, agitado, etc.), com o grau do autismo, com as doenças que o autista possa ter e com a abordagem dos técnicos e com o processo educativo.
«A terapêutica acaba por ter duas vertentes paralelas. Por um lado, o tratamento médico farmacológico, que vai depender do resultado de todos os exames; por outro, há todo o trajecto pedagógico, para o qual é necessária uma equipa com vários especialistas», sustenta Pilar Levy.
«Por ser fundamental para o prognóstico, a estimulação precoce na linguagem é uma das áreas que é trabalhada. É feita de diversas maneiras, sendo muito importante para melhorar a qualidade de vida e fomentar a interacção social das pessoas com autismo», comenta Isabel Cottinelli Telmo, em relação a um dos aspectos do trajecto pedagógico.

