Natal ao volante
Se beber não conduza é uma mensagem de todo o ano, reforçada a cada Natal: é que a festa é quase sempre regada a álcool, com excessos que ficam para as estatísticas da sinistralidade viária.
Todos os anos, PSP e GNR saem para a estrada em força para dar corpo à chamada “Operação Natal”. Todos os anos a mensagem é a mesma, mas todos os anos há acidentes, mortes e feridos a lamentar. Em 2007, só entre 21 e 25 de Dezembro, a GNR registou 1187 acidentes: neles perderam a vida 15 pessoas, 36 ficaram feridas gravemente e outras 394 sofreram ferimentos ligeiros. Já a PSP e no mesmo período, contabilizou 813 acidentes, com um morto, seis feridos graves e 177 ligeiros.
Comparando com o ano anterior, houvemenos acidentes, menos mortes e menos feridos. Mas ainda foram muitos, demasiados. E faltam nesta estatística os números da Operação Ano Novo.
Não se sabe, exactamente, qual a responsabilidade do álcool nesta sinistralidade natalícia, mas sabe-se que beber e conduzir é meio caminho andado para um desfecho trágico.
A verdade é que se bebe em demasia por estes dias de Dezembro. De mesa em mesa, sucedem-se os brindes, nos convívios da empresa, nas visitas a casas de amigos e familiares, na consoada e na passagem de ano. Sobretudo aqui, com o champanhe a ser nota dominante nos muitos encontros com que se encerra um ano e se abrem novas perspectivas.
Por cada desejo, uma passa. Por cada passa, mais um gole. Pela madrugada dentro, gole a gole ganha-se em euforia o que se perde em reflexos. E ainda assim, no rescaldo da festa, muitos são os condutores que insistem em sentar-se ao volante. Porque a distância é curta, porque se sentem capazes – os argumentos são vários para justificar um comportamento que pode ser perigoso.
Álcool estimula mas perturba
As pessoas sentem-se audazes. Tudo porque o álcool funciona como um estimulante, que activa os processos físicos e mentais. Uma capa que esconde a realidade: é que o álcool é um depressor, prejudicando as capacidades psicofisiológicas, mesmo se ingerido em pequenas doses.
Vejamos como ele actua no nosso organismo. Cinco por cento do que ingerimos é eliminado directamente através da expiração, da saliva, da transpiração e da urina. O restante passa rapidamente para a corrente sanguínea através das paredes do estômago e do intestino delgado, sem qualquer transformação química. Só no fígado é decomposto, mas muito lentamente.
Quando atinge o cérebro, órgão abundantemente irrigado de sangue, afecta, a pouco e pouco, as capacidades sensoriais, perceptivas, cognitivas e motoras, incluindo o controlo muscular e o equilíbrio do corpo. O mesmo é dizer que o álcool interfere, negativamente, em todas as fases da condução. Começa por originar uma audácia incontrolada – o indivíduo é invadido pela euforia, por uma sensação de bem-estar e optimismo, com a consequente tendência para sobrevalorizar as suas capacidades, que, na realidade, já se encontram diminuídas.
Sob a influência do álcool, as capacidades de atenção e vigilância vão ficando diminuídas; há uma redução da acuidade visual, quer para o perto, quer para o longe, o que leva à alteração dos contornos dos objectos, tanto parados como em movimento; além disso, o condutor fica incapaz de avaliar correctamente distâncias e velocidades, o campo visual estreita-se e o tempo de recuperação após um encadeamento aumenta.

