Gripe, vai bater a outra porta
Em criança aprendi a ter respeito pela gripe graças aos Parodiantes de Lisboa. Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Precisamente por esta altura do ano, ela fazia a sua aparição no intervalo de mais uma aventura dos inspectores Patilhas e Ventoinha.
Alguém batia ruidosamente à porta de uma casa, como se fosse dentro da telefonia de meu pai:
– Quem é?, perguntava lá de dentro a vítima.
– É o Inverno!, respondia uma voz cavernosa.
A vítima desatava a tossir como se os pulmões também lhe fossem rebentar dentro do rádio. A gripe aparecia então na minha imaginação como uma figura humana tenebrosa, um medonho ladrão. Eu sabia que em breve iria acontecer o mesmo ao meu corpo de criança.
Já não bastava o Verão ter acabado, levando com ele a alegria de jogar à bola em tronco nu e os banhos no rio. Aquela tosse radiofónica anunciava-me a chegada de mais um Inverno duro de aguentar na serra onde eu vivia – e a inevitabilidade de ficar doente.
A verdade é que, quando crescemos, tendemos a perder o respeito pela gripe, quase tanto como deixamos de acreditar no Pai Natal. Por ser tão frequente, a gripe tornou-se banal. Todos os anos ela atinge setecentos mil a um milhão de portugueses, mas na maioria esmagadora dos casos dura uma semana e depois passa. Ora, isso engana. Muita gente pensa que a gripe não faz mal a ninguém. Provavelmente, este é o assunto de saúde pública em que, como comunidade, andamos mais enganados.
A gripe é uma ameaça séria, especialmente para os mais velhos e para os doentes crónicos. Todos os anos morrem quatro mil a cinco mil portugueses de gripe e de doenças que a gripe desencadeia, principalmente pneumonias. A gripe é muito perigosa para os mais vulneráveis da nossa família.
Felizmente, a vacina é uma arma eficaz contra a doença. Nas contas da Organização Mundial de Saúde (OMS), previne entre 70% e 90% dos casos gripe entre adultos saudáveis. Nos idosos, evita quatro em cinco mortes. Vacinar-se é a decisão certa para todos. Mas é especialmente importante para os maiores de 65 anos, os doentes crónicos, crianças a partir dos seis meses, grávidas e profissionais de saúde.
As farmácias têm sido, desde 2008, os serviços de saúde preferidos dos portugueses para vacinar-se. Este ano, mais de 3.600 farmacêuticos estão certificados para vacinar os portugueses em mais de duas mil farmácias. Este aspecto é especialmente importante: as farmácias continuam espalhadas por todo o país, nas aldeias mais isoladas e nos bairros mais periféricos.
Quem, como eu, cresceu no Interior, sabe bem o que isto significa. As farmácias, ao contrário da generalidade dos serviços, não se mudaram todas para o litoral e os grandes aglomerados populacionais. Resistiram lá. Continuam a servir as populações mais pobres, mais idosas e com menos alternativas de serviços de saúde.
Numa farmácia, o leitor e os seus familiares mais desprotegidos contra a gripe vão poder vacinar-se, sem hora marcada ou fila de espera, com os mesmos padrões de segurança praticados nos melhores serviços de saúde do Mundo.
Para os farmacêuticos portugueses é um orgulho ajudar as autoridades de saúde a evitar mortes e complicações desnecessárias. Eles só vão descansar no dia em que Portugal alcance a cobertura vacinal contra a gripe. Por isso, este ano, quando a gripe lhe bater à porta, responda com confiança:
– Vai bater a outro lado! Eu tenho farmácia, estou vacinado.

