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Entre alunos do ensino superior » Esgotamento nervoso: problema recorrente

7 Maio, 2007 0

Da entrada para o Ensino Superior à conclusão do curso ocorrem muitas mudanças na vida dos jovens. É uma fase conturbada, repleta de novos desafios e incertezas, que podem estar na origem de desequilíbrios emocionais e no esgotamento dos estudantes.

Acontece que a ideia de sucesso marca cada vez mais as sociedades actuais e «se há uma geração ou duas ter um curso superior dava garantias de empregabilidade e era sinónimo de estabilidade, hoje em dia não é assim.

A crescente pressão do mercado de trabalho coloca cada vez maiores exigências de competitividade e produtividade aos estudantes», assinala a Dr.ª Sofia Alves da Silva, mestre em Psicologia da Saúde.

Do stress ao esgotamento

É comum ouvirmos falar de «esgotamento nervoso», mas, segundo Sofia Alves da Silva, «este termo não define um diagnóstico clínico-psicológico reconhecido.

É utilizado na linguagem do senso comum e abarca uma quantidade de perturbações que resultam num estado de exaustão, cujas origens são diversas».

Assim, e não existindo uma designação aceite pela generalidade dos psicólogos, em Portugal, para classificar este diagnóstico, a psicóloga opta por lhe chamar «esgotamento», porque ilustra bem o processo evolutivo dos pacientes e pela capacidade descritiva da palavra.

Para falar de esgotamento, «é necessário clarificar o conceito de stress, que é muito falado, mas pouco compreendido. Foi a partir do século XVII utilizado na Física, para designar uma força exterior que é exercida sobre um determinado corpo.

Se essa força exceder o limite de elasticidade do corpo, este vai ficar deformado e não volta ao seu estado inicial – como acontece quando esticamos demasiado uma mola», explica a psicóloga, completando:

«Mais tarde, já no século XX, esta ideia de limite de elasticidade passou a ser aplicada na Medicina e na Psicologia, tendo sido adoptado o termo “limite de elasticidade emocional”.

Neste contexto, o stress designa o resultado de uma exigência que provoca um desequilíbrio emocional. No decorrer deste processo, a pessoa avalia a situação de stress e os recursos de que dispõe para lhe fazer face, desenvolvendo estratégias de adaptação que podem ou não ser adequadas.»

Apesar de no senso comum o stress ter apenas um sentido pejorativo, como conceito psicológico, «pode ser positivo ou negativo, dependendo do modo como a pessoa o percepciona e o resolve. Se for adequadamente resolvido, o stress pode constituir um factor de motivação pessoal.

Caso contrário, todo o corpo quebra, o físico e o psicológico – duas realidades indissociáveis», sublinha Sofia Alves da Silva, concluindo:

«O esgotamento surge da incapacidade de resolução da situação de stress, com consequências negativas para a saúde do indivíduo. A pessoa esgota os seus recursos de adaptação e não consegue respon­der às exigências que lhe são feitas.

Quando as falhas se tornam constantes e afectam a auto-estima do indivíduo, juntamente com a manifestação de outras perturbações psíquicas e físicas, ele pode estar a caminho do esgotamento.»

Os principais factores de stress

«Um dos principais factores de stress reside na ansiedade inerente à avaliação do desempenho, seja ela contínua ou ligada à expectativa de eficácia em momentos de avaliação decisivos, como são as épocas de exames, as apresentações orais ou a defesa de teses de licenciatura», exemplifica a psicóloga.

É frequente, «sobretudo nos cursos que afirmam um elevado grau de excelência, não ser dada toda a escala de avaliação, isto é, está estipulado que a nota máxima é 20, mas alguns professores não atribuem mais do que 14, 15 valores.

É possível que alguns alunos desenvolvam uma baixa percepção de competência e se esforcem por ir além daqueles valores, podendo desencadear uma espiral de pouco sono e alimentação deficitária.

Estabelecem metas muito altas e dedicam ainda mais tempo ao estudo, restando-lhes pouco ou nenhum tempo para se dedicarem a si próprios, para fazerem exercício físico e estabelecerem relações sociais», observa Sofia Alves da Silva.

Quando consideramos o aluno do Ensino Superior, pensamos num jovem adulto e não no típico adolescente.

No entanto, a mesma psicóloga subli­nha que, «hoje em dia, a adolescência pode prolongar-se até aos 30 anos, ou mais. Com a continuação dos estudos, os jovens são protegidos pelos pais até mais tarde, o que acarreta o adiar da tão procurada independência e autonomia económica. Isto pode constituir um factor de grande stress, sobretudo na relação com os pais».

Na questão da independência verifica-se uma ambiguidade que resulta de mani­festações conscientes e inconscientes.

«Por um lado, os pais anseiam que os filhos saiam de casa, mas, por outro, e por vezes a um nível inconsciente, sentem-se bem em tê-los por perto, podendo mesmo chegar a fomentar a sua permanência.

Quanto aos filhos, na maioria dos casos, estão ansiosos por dar o salto para uma vida independente, mas a incerteza face ao futuro pode prendê-los, inconscientemente, à segurança dos pais, o que pode gerar conflitos», menciona Sofia Alves da Silva.

Não é raro que os pais projectem nos filhos as escolhas que fizeram no passado, as suas próprias crenças sociais, e os tentem influenciar ou pressionar na tomada de decisão quanto à profissão a seguir.

Tenham entrado no curso por influência de outrem ou por escolha própria, alguns estudantes descobrem a meio do percurso académico que não têm qualquer vocação para a área de actividade na qual se estão a formar, mas, talvez com receio da reacção dos pais e da percepção de falência face às expectativas sociais, não chegam a desistir do curso.

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