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Entre alunos do ensino superior » Esgotamento nervoso: problema recorrente

7 Maio, 2007 0

De acordo com Sofia Alves da Silva, «a perspectiva de uma vida dedicada a um trabalho do qual não gostam pode ser outro factor de stress para os estudantes do ensino superior».

Muitos destes jovens preenchem a sua vida com uma série de actividades extracurriculares que, para a nossa entrevistada, «resultam numa estratégia, por vezes inconsciente, para não pararem para pensar em si próprios, porque se o fizerem podem ficar deprimidos.

Juntamente com a necessidade de integração num novo ambiente, com novas pessoas e com o aumento das solicitações para saídas nocturnas e festas, pode surgir uma grande dificuldade em estabelecer prioridades. Querem fazer tudo e não sabem dizer não, resultando em fadiga prolongada e baixo rendimento».

As grandes etapas, como a entrada para no Ensino Superior e a saída para o mercado de trabalho, costumam representar «momentos de mudanças significativas a nível relacional, com a família e os amigos. É também um período em que se iniciam e terminam relações amorosas com maior frequência, o que constitui um factor de instabilidade.

«Os alunos que abandonam o seu meio para prosseguir os estudos noutras cidades correm maiores riscos, já que as pessoas isoladas têm mais tendência a cair em esgotamento.

Ao perder a proximidade com a sua rede de suporte, têm de a construir numa cidade que lhes é estranha, numa nova Faculdade, com novos amigos. Nem todos estão preparados para adaptações tão exigentes», garante Sofia Alves da Silva.

As perturbações que levam ao esgotamento

Quando estas situações de stress não ficam resolvidas, o estudante pode manifestar os sintomas do esgotamento.

«Os primeiros sintomas dão azo a quei­xas vagas, tais como tonturas, palpitações, falta de ar, a sensação de ter um nó na garganta ou dores sem uma causa física, principalmente na cabeça, abdómen, peito, costas e pernas», assinala a psicóloga, acrescentando:

«Surgem também alterações do sono, que podem manifestar-se através de insónias ou sonolência excessiva, e alterações do peso, podendo a pessoa emagrecer ou engordar. Dá-se uma perda da energia vital, que se reflecte em desmotivação, apatia, preguiça e fadiga fácil.»

E continua: «Consequentemente, assis­te-se a uma redução da perfor­mance psíquica, na capacidade de raciocínio, concentração e de tomar decisões, juntamente com falhas de memória e baixo desempenho sexual.

Há uma maior propensão para estados de irritabilidade – a pessoa passa a ser menos tolerante a situações adversas –, para distúrbios de ansiedade, apreensão contínua e medo sem uma causa específica.»

Mais tarde, estes sintomas agravam-se e o paciente manifesta um humor depri­mido, quase diariamente. Sente tristeza, angústia e pessimismo. A perda de inte­resse acentua-se e dá-se uma redução significativa do prazer obtido com a vida.

A auto-estima diminui consideravelmente e surgem sentimentos de culpa e ideias de suicídio, ou o não se importar com a sua morte.

«A longo prazo, este estado pode ter consequências graves também no sistema imunitário, abrindo caminho ao aparecimento de patologias do foro físico.

As mais frequentes são as doenças cardiovasculares, gastrintestinais e cancro. Todo o organismo fica debilitado e, no limite, o esgotamento pode conduzir à morte», adverte Sofia Alves da Silva.

A recuperação depende da gravidade de cada caso

À partida, o esgotamento é um estado recuperável. Porém, não é possível adian­tar um tempo médio de cura.

Segundo Sofia Alves da Silva, «tudo depende da gravidade dos casos e da maneira como a pessoa encara o pro­blema e se empenha para se restabelecer.

O esgotamento é o culminar de perturbações que o paciente arrasta durante anos sem tratamento, razão pela qual pode levar meses ou anos a recuperar».

«Por vezes», continua «torna-se necessário recorrer à medicação de um psiquiatra, como complemento da psicoterapia, que tem como objectivo ajudar a pessoa a encontrar por ela própria os recursos que lhe permitem ultrapassar o esgotamento.

Procuramos que o indivíduo se conheça melhor e se aperceba dos seus limites, para que, em conformidade com essa autoconsciência mais profunda de si, possa avaliar correctamente as situa­ções de stress e desenvolver estratégias de adaptação adequadas».

Carências do ensino em Portugal

Sofia Alves da Silva crê que a generalidade das instituições de ensino do nosso País «carecem de um gabinete de apoio psicológico que avalie o stress nos estudantes, de modo a prevenir casos de esgotamento.

O panorama está a me­lhorar, pois existem faculdades que têm núcleos de apoio psicológico com vários serviços, desde simples informações, até sessões de acompanhamento individual, ou em grupos».

No entanto, «a maioria das Faculdades não só não tem estes serviços, como, arriscaria dizer, fomentam a cultura da excelência e da pressão no sentido da perfeição, para preparar os alunos para as pressões do mercado de trabalho.

Neste capítulo, a articulação entre os programas das várias disciplinas é muitas vezes deficiente e os professores que as leccionam nem sempre consideram as situações de sobrecarga para os alunos e os factores que os podem conduzir ao esgotamento», conclui a psicóloga.

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