Da sensação de peso nas pernas à úlcera, passando por derrames e varizes
Para evitar todas estas consequências e melhorar a qualidade de vida, nada como travar o desenvolvimento da patologia.
«A doença venosa é complexa e mais complicada do que parece à primeira vista, pois é evolutiva e crónica», menciona Serra Brandão, prosseguindo:
«A doença propriamente dita e a sua causa nascem e morrem com o doente, mas existe um arsenal terapêutico e inúmeras medidas que impedem o sofrimento. Requer tratamento, cuidados e vigilância para toda a vida.»
Começando pela eliminação e redução dos factores de risco, na primeira linha, existem os medicamentos flebotropos, que aumentam a tonicidade da veia e conferem a elasticidade perdida. Por outro lado, melhoram as condições da microcirculação, evitando o inchaço e as alterações da pele e dos tecidos subjacentes, e evitam a ocorrência de flebites.
Nestes casos, pode, ainda, ser necessária a contenção elástica, através de meias ou collants com diversos graus de protecção e adequados a cada situação.
Relativamente ao tratamento medicamentoso, segundo Serra Brandão, «apesar de ser administrado praticamente para sempre, pode não ser contínuo, sobretudo nas épocas mais frias».
Quando a doença venosa se manifesta através dos derrames e das pequenas varizes, a opção será a escleroterapia (secagem), que consiste na injecção de um medicamento apropriado nos capilares. Estes são esclerosados e reabsorvidos pelo organismo.
Mediante a fase da doença, pode recorrer–se a diferentes métodos cirúrgicos. Nestas situações, é importante determinar o grau de desenvolvimento das varizes e o método mais indicado. O diagnóstico correcto e a confirmação se é ou não para operar é conseguido com o exame venoso ecodoppler a cor.
«Quando as varizes são detectadas nas fases iniciais, a intervenção cirúrgica poderá ser feita em regime ambulatório, com anestesia local ou com laser», observa o especialista, completando:
«Se as varizes estiverem bastante desenvolvidas, já não se pode operar em regime ambulatório nem utilizar o laser. O doente terá de ser internado, porque a intervenção terá de ser feita com anestesia geral. Se já existe úlcera de perna, a operação é mais complexa.»
Recuperação do doente
após a cirurgia
«As pessoas que têm de ser submetidas a uma cirurgia não devem ficar à espera que as varizes aumentem, porque quanto mais cedo forem operadas mais simples é a intervenção», aconselha Serra Brandão.
De facto, são notórias as diferenças da recuperação dos doentes que receberam diferentes intervenções cirúrgicas.
Caso o acto cirúrgico tenha sido realizado em regime ambulatório com laser, o indivíduo pode ir trabalhar no dia seguinte. Se o método usado em ambulatório foi o clássico, apesar de ir logo para casa, o doente terá de ter entre 10 a 15 dias de inactividade para o trabalho. Já na intervenção feita com anestesia geral, a recuperação será mais demorada, cerca de um mês.
«Em qualquer das situações, os resultados são excelentes, desde que seja feita a cirurgia correcta e indicada a cada caso», refere o cirurgião vascular.
Contudo, «a causa da doença venosa continua a existir, portanto, deverá ser observado pelo especialista uma ou duas vezes por ano», acrescenta Serra Brandão.
E conclui: «Se o diagnóstico for correcto e a cirurgia a indicada, o doente não deverá ser operado uma segunda vez, mas é natural que tenha de tomar os medicamentos flebotropos com regularidade e, eventualmente, usar contenção elástica. Com o decorrer dos anos poderá, ainda, ter de fazer uma secagem de derrames e pequenas varizes que possam aparecer.»
Sofrimento inerente
à estética
Para além de todas as consequências graves da doença venosa, não nos podemos alhear da própria estética. Não é inegável. As varizes provocam igualmente o sofrimento inerente à estética.
Sobretudo as mulheres mais jovens, podem ficar com complexos. Podem, por exemplo, deixar de usar o vestuário que gostam e desejam ou não ir à praia para que os outros não vejam as manifestações desta patologia. Mas os danos psicológicos são resolvidos se a doença for convenientemente tratada.
Rastreios para
a doença venosa
Muitos são os portugueses que não estão sensibilizados para a doença venosa.
Nos dias 6 e 7 de Abril, o Centro Comercial Colombo, em Lisboa, será palco da «Mostra da Saúde», uma iniciativa organizada pelo Rotary Club, no âmbito do Dia Mundial da Saúde (7 de Abril).
À semelhança do ano passado, e devido ao sucesso obtido, o Instituto de Recuperação Vascular vai estar presente nesta acção. Será, pois, o segundo rastreio à doença venosa a ser efectuado no nosso País.
«Se são feitos rastreios regulares para doenças como a diabetes, a osteoporose, a visão ou a audição, porque não começar a fazer para as doenças venosas? Afinal, é essencial informar e sensibilizar a população», diz Serra Brandão, que deposita expectativas positivas em relação ao rastreio deste ano, devido à forte adesão ao primeiro.
Convém, desde já, salientar que nem todos os interessados poderão realizar o exame físico às pernas com o doppler portátil. Numa primeira etapa, será feita uma pré-selecção, mediante o preenchimento de um inquérito para se saber se efectivamente a pessoa está ou não em risco de ter doença venosa. Só depois é que esses doentes são rastreados pelo profissional que, por sua vez, não prescreve qualquer terapêutica. Limita-se, apenas, a confirmar se existe ou não doença venosa, define a gravidade e encaminha o doente para o médico de família.
Factores de risco
A actividade profissional é um factor de risco bastante relevante. Porém, existem múltiplos factores. Eis os principais:
– Obesidade;
– Sedentarismo;
– Uso de terapêuticas hormonais, quer anticoncepcionais orais (pílula), quer terapias hormonais de substituição (THS);
– Gravidez;
– O facto de se ser mulher, devido aos estrogénios;
– Ficar muito tempo em ambientes quentes, pois o calor dilata as veias e agrava a doença venosa. Exemplos de situações a evitar: excesso de calor solar, depilações com cera muito quente, tomar banhos demasiado quentes e prolongados;
– Todas as profissões que requeiram esforços físicos ou que obriguem a permanecer muito tempo em pé. Considera–se muito tempo quando se está mais de 50% da actividade laboral ou diária em pé. Por exemplo, as funcionárias das lavandarias, as enfermeiras, as cozinheiras ou as assistentes de bordo, além de terem um trabalho forçado e praticamente sempre de pé, em princípio, também são donas de casa, pelo que quando chegam a casa vão continuar de pé a fazer as tarefas caseiras.
Conselhos úteis
Se sofre de doença venosa e se a mesma se encontra num estádio inicial, anote alguns conselhos úteis. Servem também para quem não padece da dita ou para aqueles com predisposição genética!
– É fundamental comer com sensatez e ter uma dieta rica em fibras;
– Perder e/ou manter o peso corporal;
– Andar a pé e praticar desportos benéficos para esta situação, como a natação, o ciclismo, a marcha, o golfe, o ballet e a ginástica rítmica;
– Evitar vestir roupa apertada;
– Usar calçado adequado – nem completamente raso, nem com saltos superiores a 5 cm;
– Fazer um banho com água fria ou tépida e aplicar um gel tónico nas pernas, todos os dias;
– Nas alturas de repouso, manter as pernas ligeiramente levantadas ou, pelo menos, esticadas em cima de um banco;
– Nas situações em que a sintomatologia é mais evidente, poderá dormir com os pés mais elevados. Para o efeito, existem almofadas próprias;
– Na praia, fraccionar os banhos solares com passeios à beira-mar, sobretudo, na zona da rebentação das ondas;
– Não abusar do tabaco nem das bebidas alcoólicas.

