Como deixei de fumar
Foi na adolescência que iniciei o hábito de fumar. Mas quando comecei a minha actividade profissional como médico, senti que tinha obrigação de terminar com aquele vício que durava há treze anos. Além de me sentir mais cansado e com uma tosse persistente, não me sentia com suficiente autoridade moral para poder aconselhar um doente a deixar de fumar.
Motivação
A decisão estava tomada, mas faltava o resto. Fiz algumas tentativas débeis, reduzindo o consumo, utilizando rebuçados ou pastilhas elásticas como substitutos do tabaco, e outros truques, sem qualquer êxito. Acabei por perceber que era necessário estar fortemente motivado e utilizar uma estratégia me permitisse suportar os primeiros tempos de privação com menor dificuldade.
Assim, resolvi elaborar um plano para conseguir atingir o meu objectivo. Em primeiro lugar tinha que me convencer que queria mesmo deixar de fumar. Seria uma decisão irreversível. Depois, tinha que me consciencializar que o vício me iria acompanhar para toda a vida. Mesmo quando eu deixasse de fumar durante alguns anos, se eu voltasse a fumar um cigarro por brincadeira, o mais provável era que retomasse o vício.
Por isso, passei a ter sempre presente o seguinte pensamento: mesmo sem pegar num cigarro, apenas vou conseguir controlar o desejo de fumar, mas nunca deixarei de ser “viciado”. Isto ajudou-me (e ajuda-me) a impedir fazer aquilo que acontece a muitos ex-fumadores: um dia, por brincadeira recomeçam a fumar.
As estratégias
Fazer uma lista (escrita) dos aspectos a ter presentes sempre que tivesse vontade de fumar, foi outra estratégia que me ajudou bastante. Nessa lista constavam entre outras: o tabaco provoca o cancro do pulmão, da bexiga, a bronquite crónica, e os atingidos não são só o fumador mas aqueles que o rodeiam; somando a despesa de todos os maços de tabaco que comprava em 12 meses, davam para passar umas óptimas férias num bom hotel.
Quando chegava a noite e me esquecia de comprar tabaco, porque é que me havia de comportar como um alienado a percorrer vários pontos da cidade à procura de um maço de tabaco? Só tinha que pensar que esse comportamento era ridículo e degradante.
A decisão
Marquei uma data (11 de Março de 1986) e durante as primeiras semanas afastei-me de tudo aquilo que me pudesse influenciar negativamente. Os jantares com amigos foram temporariamente abolidos, assim como os cafés e todas as bebidas alcoólicas. Deitava-me cedo e levantava-me muito cedo. Passei a praticar mais exercício físico.
Passadas duas ou três semanas a ansiedade foi diminuindo e quando me senti mais confiante voltei a tomar um café de vez em quando e a jantar com os amigos. Já me sentia capaz de estar perto de fumadores e não sentir necessidade de pegar no cigarro.
Actualmente, quando alguém me pergunta qual é o melhor método para deixar de fumar, respondo-lhe sempre que todos os métodos são bons, o que é mesmo preciso é… querer deixar de fumar.
Dr. Manuel Carreira Silva
Médico de Clínica Geral e Familiar
Membro do Conselho Editorial do Jornal do Centro de Saúde
Páginas: 1 2

