Saúde Oral: Sorria sem medo
A observação deve ser uma constante. Há certas manifestações que desaparecem por si. Nem todas têm uma justificação plausível, como as aftas que, na sua maioria, são de génese desconhecida. «As úlceras e certas lesões esbranquiçadas devem desaparecer ao fim de uns quinze dias a um mês. Podem acontecer algumas excepções quer nos prazos, quer na frequência, mas, se após estes prazos essas manifestações ainda subsistirem, é aconselhável ir ao médico, pois, podem indicar manifestações de doenças sistémicas ou ser o início de algo mais grave. Não efectuar uma auto-avaliação oral e não frequentar periodicamente o dentista é criar as condições para tratamentos muito agressivos e complexos», refere Francisco Salvado. Reabilitação oral O tratamento das doenças da boca não está completo sem haver uma correcta reabilitação oral. Segundo o médico estomatologista, «reabilitação oral é o acto de colocar a boca normal, como ela devia ser. Com uma relação adequada entre os dentes, de modo a que o doente fale bem, mastigue bem, degluta bem e se sinta bem com a sua boca». Dentro do mundo da reabilitação oral, há uma panóplia de respostas que permitem, na grande maioria dos casos, superar a deficiência que o paciente apresenta, permitindo ainda, no final, uma resposta personalizada. Placas dentárias, pontes fixas, implantes, aparelhos de ortodôncia e várias formas de branqueamento são as soluções que se apresentam. A imagem que temos de uma dentadura dentro de um copo com água é ainda frequente no nosso País. São as próteses removíveis, conhecidas como “placas”, que «até podem ser adequadas e funcionarem muito bem, requerendo, no entanto, alguns cuidados nomeadamente uma higienização adequada e, nos casos de desdentados parciais, uma atenção aumentada aos dentes presentes. Não esqueçamos que se trata de próteses removíveis e, portanto, podem tornar-se desagradáveis, transmitindo insegurança aos seus portadores». No mesmo campo, mas um pouco mais avançado, temos as próteses fixas, que estamos habituados a reconhecer pelo nome de «pontes e coroas». Neste tipo de intervenção, o que acontece é que os dentes existentes são utilizados como suporte para a prótese, como se de os pilares de uma ponte se tratasse. Apenas o médico tem a capacidade de colocar e retirar a prótese. Podem ser utilizadas para suprimir a falta de apenas um dente ou de vários. Necessitam, no entanto, da presença de dentes na arcada dentária. O futuro passa pelos implantes O implante propriamente dito é uma raiz artificial e que como tal terá de ser colocado no interior do osso. Os implantes são de titânio que é um metal que não provoca reacções alérgicas. A adaptação e integração do implante no osso permite que se coloque sobre ele uma coroa que é a parte visível do dente.
«Para mim, o futuro da reabilitação oral passa pelos implantes. Os outros métodos tenderão a ser cada vez menos utilizados. A substituição de dentes através de pontes tenderá a acabar não só pela sua menor duração, mas, porque implicam o desgaste dos dentes vizinhos. A substituição de um dente pode levar à lesão de dentes vizinhos. Por outro lado, o conforto da reabilitação com implantes é, sem dúvida, melhor que o que é conseguido pela reabilitação com pontes», defende Francisco Salvado. Embora a função seja o objectivo a atingir, muitas vezes os doentes preferem a estética, sacrificando alguma da função. Nesse caso, caberá ao médico proceder ao esclarecimento do que é melhor para o doente. «Ética e deontologicamente, um médico deve proceder correctamente e não colocar algo que ache ser adequado, só porque o paciente quer. Os dentistas devem seguir os princípios gerais da Medicina. Se um doente entrar no hospital e disser que quer fazer um transplante de coração, o médico não o vai fazer porque o paciente quer. Então, porque é que nesta especialidade o procedimento pode ser diferente? Deve haver uma conjugação da estética e da função e, quando a estética é a preferida pelo doente, cumpre ao médico informar o doente das consequências dessa sua preferência. Sobretudo informando das consequências a longo prazo da má função», esclarece o especialista. Depois de salvaguardada a função, a questão estética entra em campo. É feita à medida de cada pessoa, entre o médico e o paciente. Há quem peça os dentes muito direitos, há quem os prefira um pouco tortos para parecerem naturais, quem goste mais deles brancos ou tantas outras preferências. «A estética é algo muito variável. O conceito de estética, por exemplo, nos Estados Unidos, é muito diferente do conceito europeu. A dentadura branca com dentes grandes muito alinhados e visíveis pode ser muito agradável para a média do doente americano, mas não é com certeza a grande ambição do doente médio europeu», refere Francisco Salvado. Correcção pelos aparelhos Num outro campo da reabilitação oral temos os aparelhos. Segundo o médico, «os aparelhos são usados para corrigir uma má colocação dos dentes porque, quando não equilibrados podem levar a problemas de higienização, de alterações gengivais, entre outros. Os dentes muito alinhados podem não significar boa função. Quando a relação entre os dentes superiores e inferiores não é a adequada, a mastigação é dificultada ou, em casos mais extremos, pode levar ao desgaste total dos dentes. Para uma auto-avaliação muito simples poderíamos dizer que os dentes superiores devem estar mais a frente que os inferiores», esclarece o médico. A boca e os dentes não são estáticos. Se faltar um dente, os outros irão mover-se para preencher o espaço do que falta. Isto pode levar às situações incómodas de comer e ficar com pedaços de comida entre os dentes, sobretudo com alimento fibrosos e de grande capacidade de retenção. Um mau equilíbrio da estrutura dentária pode também levar a problemas de articulações da mandíbula. A articulação temporomandibular (que fica junto ao ouvido) pode estar a ser forçada, levando a queixas como a dor e mesmo em alguns casos à incapacidade de abrir correctamente a boca. Branqueamento dos dentes Além da questão dos aparelhos, dos implantes e próteses, parte da reabilitação também passa pelo branqueamento dos dentes. É aquilo a que se chama a reabilitação estética. Há várias formas de proceder a este tratamento, que deve ser aconselhado por um médico, quer por uma questão de individualidade do paciente, quer por segurança. «Há branqueamentos que podem ser feitos em casa pelo próprio doente, depois de consulta prévia com o dentista. A utilização sem aconselhamento de produtos branqueadores pode levar a consequências graves como a lesão das gengivas ou à tão debilitante sensibilidade dentária. Esta aparece sobretudo nos tratamentos não controlados pelo médico em que o próprio doente aumenta a intensidade do tratamento com vista a um resultado branqueador mais intenso. Há alguns locais, como ginásios e solários, que aplicam estes produtos e fazem tratamentos a laser. Convém sempre que o doente pesquise e peça prova da existência de um médico responsável. Os produtos branqueadores não são isentos de riscos. Os médicos têm a formação necessária para não só os prevenirem mas, se for o caso, tratar qualquer complicação», defende o médico. Outra das opções para o branqueamento dos dentes, muito na moda hoje em dia, são os tratamentos de laser. No entanto, há um conjunto de indicações que devem ser transmitidas a quem está interessado neste tratamento, pois «fazê-lo a todos os doentes é errado, nomeadamente se o doente não estiver devidamente informado. Lembro-me sempre de uma doente que efectuou um branqueamento dias antes das férias de Verão. Claro que, com o bronzeado, o contraste do branqueamento tornou-se desagradável. Vejo com frequência doentes que são grandes fumadores a fazerem tratamentos branqueadores. Não estão, com certeza, informados que o pigmento tabágico é mais visível em dentes muito brancos», esclareceu Francisco Salvado. Salvo situações em que o doente não teve responsabilidade, como acidentes, defeitos de nascença ou algo semelhante, está muito na mão das pessoas evitar que tenham de passar por tratamentos ou reabilitações complexas que, normalmente, são demorados e consideravelmente dispendiosos. Segundo o especialista, «as pessoas devem ir ao dentista pelo menos uma vez por ano para uma consulta de rotina. Não se deve esperar pela dor. É mais saudável, mais civilizado e, nesta época em que se fala tanto de dificuldades económicas, é, sem dúvida, muito mais barato». A saúde oral nas crianças e nos jovens A cárie dentária é muito prevalecente na população infantil e jovem. Porém, a sua prevenção é fácil e para isso basta escovar os dentes com um dentífrico com flúor, todos os dias, desde o nascimento do primeiro dente. Em Portugal, no ano 2000, apenas 33% das crianças até aos 6 anos estavam livres de cáries. Os professores e os pais têm um papel importante a desenvolver junto das crianças no que diz respeito à formação dos hábitos alimentares. Sabe-se que os alimentos ricos em açúcar – doces e bebidas açucaradas – aumentam o risco de desenvolvimento de cáries. O Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral nas escolas tem sido fundamental para reduzir a prevalência de cáries nos mais pequeninos. Junto a um lavatório ou na sala de aula, eles podem escovar os dentes, no final da refeição, com a supervisão e o acompanhamento respectivo dos professores. Sobre a promoção da saúde oral, nas crianças e nos mais jovens, saiba que: Até aos 3 anos: • A higiene oral inicia-se com a erupção do primeiro dente e deve ser feita com uma gaze, dedeira ou escova macia; • Os pais devem utilizar uma pequeníssima quantidade de dentífrico fluoretado de 1000-1500 ppm (o rotulo do dentífrico contêm a dosagem de fluoreto) Dos 3 aos 6 anos: • A criança deve fazer a escovagem dos dentes, com supervisão, pelo menos duas vezes por dia, sendo uma delas obrigatoriamente antes de deitar; • A escova deve ser macia e ter um tamanho adequado à boca da criança; • O dentífrico fluoretado deve ter entre 1000-1500 ppm e a quantidade é idêntica ao tamanho da unha do quinto dedo (mindinho) da criança. Mais de 6 anos: • A escovagem dos dentes deve ser feita pelo menos duas vezes por dia, sendo uma delas obrigatoriamente antes de deitar; • A escova deve ser macia ou média, de tamanho adequado à boca da criança; • O dentífrico fluoretado deve ter entre 1000-1500 ppm, e a quantidade é de aproximadamente um centímetro. Na adolescência: • A higiene oral faz parte da construção e do reforço positivo da auto-imagem; • As expectativas dos jovens acerca dos lábios, boca e dentes, nos planos estético e relacional, são de valorizar. Doenças dentárias mais comuns Placa bacteriana É a acumulação de bactérias nos dentes devido à falta de higiene. Quando ficamos algumas horas sem lavar os dentes, com a própria língua, sentimos os dentes mais ásperos. Isso é placa bacteriana. A simples escovagem e uso de fio dental é suficiente para eliminar a placa bacteriana. Esta pode dar origem a cáries ou evoluir para tártaro. Cáries Normalmente, surgem na sequência de uma má higiene. As bactérias aderem ao dente, formando uma camada incolor, denominada placa bacteriana. O metabolismo dessas bactérias leva-as a produzirem ácidos que, em contacto com os dentes, irão causar uma desmineralização formando cavidades, ou buracos nos dentes. O principal sintoma da cárie é a dor e evita-se, acima de tudo, com uma boa higiene dentária, bem como na moderação na ingestão de açúcares. Tártaro O tártaro é uma evolução da placa bacteriana. Surge quando a placa bacteriana não é removida, acabando por calcificar, isto é, endurece e fica agarrada ao dente. Normalmente, o tártaro é visível sob a forma de uma camada amarela nos dentes, na linha da gengiva. Apenas o dentista pode remover o tártaro, pelo que convém manter uma boa higienização nunca deixando a placa bacteriana se tornar tártaro. Gengivite É uma inflamação das gengivas causada pela presença de placa bacteriana e tártaro nos dentes, próximo das gengivas. A gengiva fica avermelhada e inchada, quando a cor normal é rosa claro. Ocorre frequentemente o sangramento aquando da escovagem, da passagem com fio dental ou mesmo durante as refeições. Normalmente, o local que mais sangra é aquele que precisa de mais cuidados. Mau hálito O mau hálito é também conhecido por halitose e tem origem em diversas causas. Podemos dividir as causas em locais (má escovagem, feridas cirúrgicas, periodontites) e sistémicas (diabetes, prisão de ventre), mas a grande génese dos casos de mau hálito são bactérias que se alojam principalmente na língua e que produzem compostos à base de enxofre. Esta situação é perfeitamente normal ao acordar.

