Percepção visual e condução automóvel
A visão é o sentido imprescindível na condução automóvel. Só com um adequado conhecimento de todos os factores que afectam e condicionam a visão será possível interferir nas condições intrínsecas ou extrínsecas ao condutor, e, assim, contribuir para a optimização da visão nas condições normais, ou mais adversas, com que se deparam os condutores dos veículos automóveis.
Os principais factores que podem interferir e influenciar o desempenho da função visual são a acuidade visual, o contraste, o encadeamento, a cor, o campo visual e a percepção da profundidade. Para nos explicar estes factores entrevistámos o oftalmologista Fernando Bívar.
Em que consiste a acuidade visual?
A essência da visão consiste na capacidade para perceber a forma dos objectos.
A acuidade visual dependerá da interpretação das imagens. Os principais factores com influência directa na acuidade visual são a região da retina estimulada, a intensidade de iluminação (conforme vai aumentando a iluminação – luz projectada sob uma superfície – vai melhorando a visão), distribuição espectral da luz (quanto mais as características da luz se aproximarem das do espectro solar – iluminação natural – melhor será a acuidade visual, sendo máxima para a luz solar) e tempo de exposição (para estímulos de fraca intensidade o olho terá de repetir vários movimentos para que a retina seja estimulada; se houver muito movimento também não é possível fixar e quanto melhor for a distribuição da iluminação melhor será a sensibilidade aos contrastes e por conseguinte melhor será a acuidade visual).
E qual a importância do contraste na visão?
Se não houver contraste, há uma sobrecarga para perceber as imagens. O contraste é uma relação de luminância (luz emitida pelas superfícies).
Para a melhoria da visibilidade e segurança na condução automóvel é importante o aumento do diâmetro das fontes luminosas do semáforo, e em particular da cor vermelha que contrasta subconscientemente com as outras cores, colocar ecrãs negros em redor dos semáforos ou recorrendo às novas tecnologias para as fontes de iluminação, em que os pixéis são mais luminosos.
Como pode a luminosidade tornar-se excessiva ao ponto de provocar o encadeamento?
O encadeamento resulta da excessiva diferença de luminosidade (sensação visual segundo o qual um objecto parece emitir mais ou menos luz). Vários tipos de encadeamento podem derivar de intensidade de luz incomodativas. Os focos de luz direccionados para as pessoas encadeiam e impossibilitam a visão, podendo originar traumatismo – foto traumatismos.
Durante a condução automóvel, a causa mais frequente de encadeamento directo é o uso indevido dos faróis máximos.
A diminuição do encadeamento é possível com o uso de filtros para os comprimentos de onda da luz azul e em especial filtros polarizados.
Como percepcionamos as “cores”?
Na retina existem três tipos de cones, cada um com um pigmento sensível, e da sua estimulação conjunta resulta a sensação de cores. Na área central da retina existe uma predominância de cones sensíveis ao vermelho e verde e um pouco mais perifericamente temos uma maior sensibilidade para a luminância e para o eixo amarelo-azul.
Por estas razões, o vermelho é sempre aplicado em situações em que é necessário parar e o amarelo e azul a tudo o que se deseje percepcionado sem que se esteja a olhar na sua direcção. Motivo pelo qual o INEM agora é amarelo e azul, porque passa, chama a atenção sem ter que se olhar directamente.
Como obtemos percepção da profundidade?
A percepção da profundidade perfeita só é possível com a visão binocular. No entanto, a percepção do espaço não é exclusivamente tridimensional, poderá ser bidimensional visto que define a direcção. Com a tridimensionalidade obtêm-se a profundidade e a dimensão. Os movimentos paralácticos (deslocação aparente de objectos fixos quando vistos por um observador móvel que fixa um ponto de referência) auxiliam na percepção da profundidade.
Outro aspecto da profundidade é a visão estereoscópica em que o olho dá informações ligeiramente diferentes de duas imagens e a nível nervoso central faz a fusão e nos dá a noção das dimensões.
De que forma as condições de iluminação influenciam na condução automóvel?
A iluminação é indiscutivelmente um dos factores primordiais de segurança na condução automóvel. Tanto a falta de iluminação como a iluminação excessiva podem ter efeitos adversos. A adaptação ocular aos níveis de luz é muito fácil. É de quatro segundos ao claro, mas ao escuro é mais difícil, cerca de meia hora. Isto cria problemas, por exemplo, na saída de túneis com muita luz, à noite, como por exemplo no túnel do Areeiro (ver imagens 2, 3 e 4).
De uma maneira geral, a iluminação permanece constante de dia e de noite o que, durante a noite, origina uma dolorosa adaptação à luz à entrada do túnel e uma dificuldade na adaptação imediata ao escuro quando da saída. Estas situações podem provocar foto traumatismo, descolamento da retina e hemorragias, devido à contracção brusca da pupila.
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