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Osteoporose, uma doença com 7 mil anos de História

30 Janeiro, 2005 0

Sem os tratamentos que existem nos dias de hoje, mas sem viver tanto tempo, nem as Clarissas de Santa Clara a Velha, mesmo numa vida dedicada a Deus, escapavam aos sofrimentos infligidos pela osteoporose.

Assim dizem os seus restos mortais, agora ao serviço da investigação científica.

Através dos tempos, a osteoporose tem deixado marcas mais ou menos visíveis, consoante os casos, em mulheres, mas também em homens, se bem que neste último caso em menor escala. São alguns ensinamentos da paleopatolologia, uma palavra longa, mas que responde por uma definição muito simples: é a ciência que se dedica a analisar as doenças em pessoas que já viveram há muito tempo e das quais apenas resta o esqueleto como objecto de estudo.

«O conhecimento da frequência da osteoporose nas populações do passado pode ser útil para compreender a ligação da incidência desta patologia metabólica no futuro e o aumento da longevidade», afirma a Prof.ª Eugénia Cunha, professora catedrática do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Aprofundando esta premissa, a cientista sustenta que a análise «aos diferentes tipos de vida e à longevidade, supostamente mais reduzida que a actual, podem ser úteis de modo a permitir uma elucidação sobre a influência do tipo de vida/actividade e da longevidade na incidência desta doença».

A osteoporose deixa vestígios no esqueleto humano, sendo identificável através de exames específicos. Talvez as provas mais antigas desta doença metabólica remontem a populações que viviam no nosso território há cerca de 7000 anos, em pleno mesolítico, num regime de semi-sedentarismo. Um conjunto de vértebras torácicas fundidas levanta essa suspeita.

Numa referência aos vários trabalhos publicados sobre a prevalência da osteoporose em determinados grupos populacionais, Eugénia Cunha destaca como bom exemplo os estudos na série osteológica de Spitalfields, «uma igreja de Londres, de onde se exumou uma importante série de esqueletos identificados dos séculos XVIII e XIX». Esses estudos sugerem que, em Inglaterra, os padrões de perda de massa óssea nas mulheres permaneceram inalterados no último milénio.

«Através da análise do índice cortical dos metacárpicos, foi possível confirmar a existência de osteoporose em homens e mulheres, sem no entanto se ter conseguido uma correlação entre a ocupação profissional, ou seja, a quantidade de esforço físico dispendido ao longo da vida, e a existência desta patologia», diz a antropóloga.

Um estudo idêntico está a ser feito nas Colecções de Esqueletos Identificados da Universidade de Coimbra, que datam dos séculos XIX-XX.

Em Portugal, afirma Eugénia Cunha, «os casos de osteoporose definitivos mais antigos datam da Idade Média».

Em Santa Clara a Velha foi estudada uma série composta por 70 esqueletos de Clarissas, mulheres que viviam no mosteiro local. Numa amostra populacional medieval de S. João de Almedina, freguesia da cidade de Coimbra, foram detectados casos desta doença em mulheres que terão morrido com mais de 50 anos.

«A redução no peso e as fracturas típicas, designadamente no colo femoral e nas vértebras, podem ser observados nalguns dos casos», assinala a investigadora.

Eugénia Cunha acrescenta ainda que, no que diz respeito às Clarissas de Santa Clara a Velha, onde coordenou uma equipa antropológica de escavação, «algumas daquelas mulheres tiveram osteoporose durante a sua vida, pensa-se que por causa da pouca mobilidade entre as paredes de um mosteiro onde passavam os seus dias em voto de pobreza, o que leva à perda de massa óssea. Mas, por outro lado, apresentavam também, ao mesmo tempo, artroses nos joelhos, devidas obviamente à existência religiosa que levavam, em constante oração. Mas aqui o fenómeno é inverso, ou seja, a artrose é uma doença que pressupõe a formação de osso».

De acordo com as fontes históricas, só a partir de meados do século XIX se terá tomado consciência clínica da osteoporose. Logo, «os ossos humanos das populações pretéritas constituem uma fonte de estudo diacrónico ímpar desta condição patológica», reforça Eugénia Cunha.

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